CONTO

O rosto perdido



- Stelamaris! Stelamaris!

De repente, aquela voz tão distante e tão breve, parecendo sucumbir no meio do burburinho e da agitação da cidade efervescente, penetrava-me sutilmente os tímpanos e eu conseguia ouvi-la, apesar de toda a massa em derredor. Olhei e pensei que fosse o rapaz que saía de costas à minha frente, tão logo havia levantado a cabeça e retirado os olhos que fitavam o outro lado da rua, aguardando o semáforo fechar para que eu ganhasse a calçada do outro lado. Imóvel, retrocedi na minha intenção de atravessar a faixa de pedestre e fui em direção àquela voz que ainda martelava em meus ouvidos: - Stelamaris! Stelamaris!

Sim, só podia ser aquele homem que eu vi de costas, pois o som vinha de sua direção para atingir meus ouvidos daquele lado. A voz não vinha de outro lado, não vinha. Era uma coisa estranha, um chamado, como de alguém que há muito não me visse e quisesse de novo estabelecer o contato, o vínculo perdido - não sei - mas que por uma ou outra razão não teve como completar o impulso e puxar-me pela mão, talvez, ou abraçar-me por trás, ou me tocar e dizer: Stelamaris!

Naquele corre-corre, eu ainda tentava driblar as pessoas, seguir o cavalheiro. Quem era aquele homem de costas, de andar apressado, de uma severidade nos passos, que não olhava para trás, que não me olhava? Quantas vezes ele me teria visto? Ou seria coincidência, uma outra Stelamaris, uma outra mulher que ele pensou estar ali em mim, plágio físico, sósia, clone, que o fez confundir-se, igual até no nome?

Desde aquele momento eu queria descortinar a cara do rapaz, mas algo em mi, algo em nós não permitia. A iminência terrível de uma surpresa desagradável, de saber não ser a mesma pessoa procurada talvez impedisse que eu adiantasse os passos e tirasse a prova dos nove. Não, eu não o conheço, ele estava atrás de outra Stelamaris e confundiu com a Stelamaris da Ceilândia, a Stelamaris verdadeira que está atrás de mim. Aquela a quem ele chamou , quase sussurrando o nome na travessia do semáforo do Eixinho Sul, poderia ter sido Stelamaris do Guará, a do Núcleo Bandeirante, a da Asa Norte ou, a que escreve livros, ou quem sabe, a do Lago Sul, porque o homem de terno e andar apressado que me chamou - Stelamaris! Stelamaris! - parecia mesmo ser um homem do Lago Sul, um homem de posses, novo ainda, mas um homem de classe média, eu notei no seu andar, no seu jeito de ser, na sua vergonha em ter  reconhecido a pessoa errada, por que um homem iria chamar-me assim, tão pressuroso - Stelamaris! Stelamaris! - e iria embora, sem se desculpar, sem nenhuma atitude que explicasse sua procura, sua expectativa ou frustração?

Eu caminhei longamente atrás dele, sem saber se ele percebia ou não, sem saber ao menos seu nome, sua profissão. Só sei que era o homem que me chamou. Trinta anos? Trinta e poucos? Não sei. Sei que ele desviava das pessoas, ziguezagueando pelo viaduto cheio de gente, contornando as placas indicativas de obras do metrô, e irrompia naquela passarela apinhada de pessoas que iam e vinham, à hora do almoço, em direção ao Conic, ao Conjunto Nacional, às plataformas sujas da rodoviária do Plano Piloto. E como mais um na multidão, avançava, sem ser notado, apenas eu o notara e aquele sussuro no meu ouvido já parecia um grito, e eu, curiosa, sem saber quem era, o que queria o rapaz de terno, gravata e pasta 007, saí em seu encalço, furando a multidão. Eu já me sentia quase uma sombra à sua distância, uma perseguidora, uma detetive buscando desvendar um mistério qualquer, e quanto mais o acompanhava com meus passos miúdos, mais ele ia se distanciando, quase sumindo no meio das pessoas. Fui encontrá-lo  mais adiante, na mesma cadência, já num local sem muito fluxo, mesmo assim eu não conseguia emparelhar-me com ele e olhar o seu rosto, sua fisionomia, seu espanto ou surpresa. Continuei á retaguarda, como alguém, pé ante pé, vigiando outrem. Já estava em pleno Setor Comercial Sul, passava ligeiro pelas barracas de camelôs e ia tomando seu caminho, sua rota, quando, num movimento brusco, retirou o celular do bolso da camisa e o atendeu com sofreguidão mas sem alterar seu ritmo, que irrompia célere em direção a um lugar, a um compromisso qualquer. Entraria em algum prédio de escritórios? Numa agência bancária? Numa loja? Numa casa de massagens ou num dos muitos self-services daquele setor?

O homem caminhava... e eu, sem saber, estava no seu encalço, na sua cola, vasculhando a solidão de seu mundo, que no fundo, no fundo, era a minha própria solidão, desalojada num sussurro: - Stelamaris! Stelamaris! Aquela voz veio de algum lugar e só poderia ter vindo daquele homem, daquela criatura. Ou não?

A dúvida a constranger-me, colocando-me frente a frente com a possibilidade de uma abstração. Teria eu mesmo ouvido aquela voz - Stelamaris! Stelamaris! Não pude suportar mais aquela perseguição, e algo se revelou dentro de mim - a verdade insofismável: eu estava sendo ridícula. Foi quando desviei os olhos, olhei pra trás e vi o quão longe e inutilmente eu tinha caminhado, desviando-me do meu propósito rotineiro: tomar o ônibus em direção ao Paranoá, chegar em casa, como faço todos os dias, antes das sete da noite, preparar a janta e ver a novela das oito. 

Recuei, mas ainda olhei em volta, tentando discernir entre a alucinação e a realidade, julgando que fosse um ímpeto, ilusão de ótica, coisas de espírito que andam brincando com a gente. Foi quando percebi que o homem havia desaparecido. Nunca soube se fora ou não ele quem gritou o meu nome. Mesmo assim, ficou-me aquela iniludível sensação de ter perdido seu rosto para sempre, malgrado nunca tê-lo encontrado em nenhum outro tempo ou lugar. 

Quando cheguei em casa, já passava das dez da noite, o Paranoá era longe - e aquela voz não saía de mim, com a contundência de um relâmpago rasgando a noite. Além disso, a chuva de fim de janeiro que caía torrencialmente sobre Brasília entupiu as vias da cidade, causando grandes congestionamentos. Um acidente na L-2 Norte interrompeu o tráfego por muito tempo. Não havia como sair dali. Durante o trajeto eu conjeturava uma explicação plausível para o Armando e as crianças, que nunca me viram chegar tarde em casa. Não falaria da chuva, porque a desculpa era banal demais e nunca foi motivo para atraso tão longo, e o caminho não era tão distante assim. Nem falaria do acontecimento, daquela busca desenfreada atrás de um desconhecido que se dispersara na multidão - fato que me levou a desviar o trajeto e pegar o ônibus depois da hora. Uma estranha história!!! - certamente diriam os de casa. E eu tentaria ser esquiva, sem ser convincente. E não saberia dizer mais nada sobre isso, senão que o meu mundo já não era o mesmo depois daquele dia.

cagiano

Do livro de contos acima, "Dezembro Indigesto", editado em 2001, através da Bolsa Brasília de Produção Literária, foi reproduzido o conto de hoje

cagiano

Ronaldo Cagiano Barbosa é um advogado, escritor, ensaísta e crítico brasileiro. Nasceu em Cataguases (MG)

 

 


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