TRECHO DE ROMANCE

Yann Andréa Steiner



A jovem acaba de se banhar no mar. Está nua, também, como o menino, agora seu corpo está estendido ao lado do corpo do menino.

Eles ficam calados, os olhos fechados, muito tempo.

Depois, ela fala com o menino sobre aquela história do tubarão.

Naquele entardecer, cor de tempestade e de ouro, diz a jovem monitora, David escuta um barulho vivo, alguém chora na ilha mas sem raiva, sem saber muito bem que chora, dormindo talvez. 

David procura, se vira e vê todo o bando de animais da ailha deitado sob a luz dourada. É uma grande extensão ruiva perfurada pelos diamantes dos olhos. Olhos que olham todos para David.

Eu sou o menino perdido, grita David, não tenham medo.

Então os animais se aproximam de David.

Quem está chorando? pergunta David.

A Fonte, dizem os animais.

E os ruídos de um choro muito suave chegam, com o vento, até o mar.

Todas as noites ela chora. É uma fonte que chora. Vem de um país distante, Guatemala chama-se, e para vir atravessou dois oceanos e vinte e dois continentes do fundo dos mares.

Tem setecentos milhões de anos, diz uma velha lçebre, e agora não aguenta mais e deseja a morte, a Fonte chama a morte ao anoitecer.

David não responde.

É por causa disso que ela chora, você entende, diz uma panterinha.

É preciso se colocar no lugar dela, diz um macaquinho cinzento.

Parece que ela está ouvindo, diz David.

Alguém chama, escutem... é a Fonte, a mãe de todos, nossa grande imigrante dos oceanos. A grande Fonte equatorial do Norte da Terra, diz o macaquinho branco.

Todos os animais escutam, David também.

O que aconteceu na ilha? pergunta a vozinha da Fonte.

Uma criança, diz o jovem búfalo asiático.

Ah, um filhote de homem...

Isso mesmo.

Essa criança, será que ela tem mãos?, pergunta ainda a Fonte.

Sim, dizem todos os animais juntos, pelo menos duas mãos, parece...

David mostra suas mãos aos animais e à Fonte.

Ele está pegando uma pedra, dizem os animais.

Ele a está jogando para o ar.

Ele a está apanhando.

É ele então quem vai tocar a gaita esta noite?, pergunta a Fonte. 

Esta noite é ele, dizem os animais. Eles estão felizes pela Fonte. Nos outros dias os animais não sabem quem é o pequeno David, mas esta noite é ele sim, a gaita.

Louvado seja Deus, diz a Fonte. E o pequeno David.

Sim, repetem os animais.

Numa algaravia maravilhosa, a Fonte diz uma oração. Os animais respondem com o seu jeito de falar e ouve-se uma cacofonia inesperada.

E depois: E matar, será que esse menino saber?, pergunta a Fonte, fingida.

Não, dizem os animais. Depois os animais, eles esperam, eles ficam ali para impedir a Fonte de fazer alguma coisa para morrer.

Não, dizem os animais, não e não... ele não mata nada, o menino. Nada.

A Fonte se cala, se cala um tempo. E depois, eis que de repente, na calma do anoitecer, ouve-se um enorme cascatear de água. 

Ei-la que sai do Reservatório do Atlântico, dizem os animais.

A Fonte aparece.

A jovem diz que a Fonte é uma pessoa e ao mesmo tempo uma montanha de água, vítrea como a esmeralda. Que ela está sem braços, sem rosto, cega, que caminha imóvel para não desfazer as dobras de águas drapeadas que leva em torno de si. 

Ela procura as mãos de David, a Fonte, diz.

O poente entra nos seus olhos mortos e depois anoitece.

David, David, ela chama, a Fonte cega.

Ela procura David para morrer. E o menino olha em volta.

Ela chora. David, David, ela grita.

Então, eis o que faz David: David pega a sua gaita e toca uma polca muito antiga da Guatemala. 

Então... então... escutem bem... eis que a Fonte para, estupefata. e depois eis que, com uma grande e jovem lentidão, com a graça de uma criança, ela começa a dançar a lenta e tão suave polca da sua Guatemala nativa.

Até o amanhecer ela dançou, diz a jovem monitora, e quando o dia chegou ela dançava dormindo. Então os animais da ilha a trouxeram muito devagar para uma gruta sombria do Reservatório Atlântico. E acalentaram aquele corpo de sombra com seus beijos, e estes beijos lhe devolveram a vida pelo esquecimento da vida. 

A jovem monitora se cala. O menino dos olhos cinzentos se deitara ao lado dela e adormecera. Tinha colocado as mãos sobre seus seios jovens. Ela não se mexeu, deixou-o ficar assim. Por baixo do vestido ele tinha encontrado os seios. Suas mãos estavam geladas pelo vento do mar. Estava maravilhado. Apertou-os com força, até doer, não os podia largar, não os podia esquecer, e quando ela retirou as mãos dele dos seios, seus olhos choraram. 

A gente diz coisas que não têm nada a ver com os acontecimentos da tarde e da noite que está chegando, mas que tratam de Deus, da sua ausência tão presente, como os seios da jovem tão nova, diante da imensidão a vir.

duras

A prosa reproduzida nesta edição vem do romance acima (Editora Nova Fronteira-1992). Tradução de Maria Ignez Duque Estrada

duras

Marguerite Duras (1914-1996) nasceu na França. Foi romancista, novelista, roteirista, poetisa, diretora de cinema e dramaturga. Uma voz feminina retumbante da literatura do Século XX na Europa

 

 

 


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