TRECHO

Contos Negreiros



Canto III


Todo camburão tem um pouco
de navio negreiro.
MARCELO YUCA                                                                                                                           

 

Violência é o carrão parar em cima do pé da gente e fechar a janela de vidro fumê e a gente nem ter a chance de ver a cara do palhaço de gravata para não perder a hora ele olha o tempo perdido no rolex dourado.

Violência é a gente naquele sol e o cara dentro do ar condicionado uma duas três horas quatro esperando uma melhor oportunidade de a gente enfiar o revólver na cara do cara plac.

Violência é ele ficar assustado porque a gente é negro ou porque a gente chega assim nervoso a ponto de bala cuspindo gritando que ele passe a carteira e passe o relógio enquanto as bocas buzinam desesperadas.

Violência são essas buzinadas e essa fumaça e o trânsito parado e o outro carro que não entende que se dependesse da gente o roubo não demoraria essa eternidade atrapalhando o movimento da cidade.

Violência é você pensar que tudo deu certo e nada deu certo porque quando você vê tem um policial ali perto e outro policial ali perto querendo salvar o patrimônio do bacana apontando para a nossa cabeça um 38 e outro 38 à paisana.

Violência é acabarem com a nossa esperança de chegar lá no barraco e beijar as crianças e ligar a televisão e ver aquela mesma discussão ladrão que rouba ladrão e aprovação do mínimo ficou para a próxima semana.

Violência é a gente ficar com a mão levantada cabeça baixa em frente à multidão e depois entrar no camburão roxo de humilhação e pancada e chegar na delegacia e o cara puxar a nossa ficha corrida e dizer que vai acabar outra vez com a nossa vida.

Violência é a gente receber tapa na cara e na bunda quando socam a gente naquela cela imunda cheia de gente e mais gente e mais gente e mais gente pensando como seria bom ter um carrão do ano e aquele relógio rolex mas isso fica para depois uma outra hora. 

marcelino

Texto reproduzido do livro de contos acima (Editora Record-2005), que integra a biblioteca do site

renato parada

marcelino

Marcelino Freire nasceu em Sertânia (PE). É radicado em São Paulo há vários anos. Entre os prêmios que já faturou está o Jabuti 2006, com este livro do qual reproduzimos um conto

 


Voltar  

Confira também nesta seção:
19.06.18 18h00 » Aurélia
17.06.18 18h00 » Pergunta final
15.06.18 17h53 » Ficções
13.06.18 18h00 » Madona dos Páramos
11.06.18 18h00 » A casa dos cem cascos
09.06.18 17h58 » O diário de Frida Kahlo...
07.06.18 18h00 » Os condenados
05.06.18 17h16 » Contos Negreiros
03.06.18 18h00 » Yann Andréa Steiner
01.06.18 17h20 » O rosto perdido
30.05.18 18h00 » O inominável
28.05.18 17h45 » Morte a crédito*
26.05.18 17h55 » lorenzzojesus
24.05.18 17h46 » Envelhecer*
22.05.18 18h00 » Amor,*
20.05.18 17h41 » O orgasmo feminino e o quindim*
18.05.18 17h32 » Prova falsa*
16.05.18 18h00 » Livre-arbítrio*
14.05.18 18h00 » Totonha
12.05.18 18h00 » Supermãe*

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet