ROMANCE (trecho)

Os condenados



João do Carmo aproximou-se, no escuro da noite, para saber a resposta de sua ousada carta. Continha a felicidade dentro do peito musculoso de nadador; segurava-a como um pássaro vivo. Ela estava ali, pálida silhueta, esperando-o. Imobilizava pupilas verdes de veludo e cristal na moldura das grandes alvas súplices.

Ele continha a felicidade dentro do peito musculoso de nadador, segurava-a como um pássaro vivo.

Interpelou-a, entregando-se todo, passando pelas grades, uma oferenda física, os olhos e o peito que badalava.

Mas uma punhalada certa alcançou-lhe o coração confiante. O moleque Bastião entrou na rua. Ela dissera-lhe que tinha um outro amor. Ficara conversando. Pareceu-lhe ver o cão achegar-se latindo. Pareceu-lhe vê-la ir para dentro.

Caminhou na direção do seu quarto. Recordava o diálogo. Ela dissera que preferia o outro porque ele a amava por vício. Ele gritara estranguladamente que não. Era do fundo do coração que a queria. 

Acendeu a lâmpada elétrica. Sentia-se só no seu naufrágio. Sentara-se. Depois ergueu-se com um grito apenas sufocado. Andou. Repetiu com os punhos amarrados versos de Baudelaire.

Sentiu que qualquer coisa ria horrivelmente de si, da sua situação de telegrafista, do seu crédulo romance, dos seus grossos músculos inúteis.

Chegou-se à janela num confuso palavrório mental, onde havia muito destino, muita pesquisa do eterno coração das mulheres.

Encostou a cabeça à vidraça fria. E, da rua, subiu-lhe às têmporas, pelos ouvidos, uma vaia infinita de grilos.

Saiu. Pela avenida, sob os bicos de gás e as árvores espaçadas, ia declamando todos os versos altivos que sabia. Recitava Bouilhet:

Tu n´as jamais été, dans tes jours les plus rares
Qu´un banal instrument sous mon archet vainqueur,
Et, comune un air qui sonne au bois creux des guitares,
J´ai fait chanter mon rêve au vide de ton couer. 

oswald

O trecho do romance reproduzido foi extraído do livro acima (Editora Civilização Brasileira-1978). Obra constante do acervo do Tyrannus

 

oswald

Oswald de Andrade (1890-1954) foi escritor, ensaísta e dramaturgo. Nasceu e morreu em São Paulo e foi um dos principais nomes do modernismo brasileiro

 

 


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