Deixa vazar


 Roberto França

Quatro dias sem a TV paga e não agüento assistir o programa Resumo do Dia, com suas bombas, lapadas e o sotaque cuiabano carregado,  me diverte muito. Não chega a ser nenhuma maravilha o programa do Roberto França, mas tem o seu valor. O apelo regional, enfocando os problemas de Cuiabá e o estopim curto do França dão um tempero mais que interessante . Ele é um sujeito que, pelo menos aparentemente, fala o que pensa. E deve ouvir o que não quer. Faz parte do jogo.

Fico imaginando o França ligando para a Sky e caindo no maldito auto-atendimento que a empresa de televisão paga oferece. A gravação é uma voz feminina, cheia de trucagens pra conduzir a conversa como se fosse uma amiga de longa data “Ah, então você quer pagar a sua conta com cartão?”  Tecle 1 para sim e 2 para não, aí você digita... Vem a voz cretina. “Então você escolheu o cartão visa?” Que legal. Vai pagar a vista? Tecle 1. Tecle 2 se for parcelado.  Ah!  tá apertado,  não fique chateado muita gente que liga aqui, também ta parcelando. É a crise, dizem.  Em quantas vezes? Tecle o numero de parcelas. “Nossa tudo isso?” Ta feia a coisa, hem?”  E a lenga-lenga vai te enrolando, querendo  te convencer que está conversando com um atendente, num papo assim bem coloquial... Francamente. Eu não agüento. Dá vontade de mandar pra pqp. Essa raiva repentina, que resulta numa explosão inesperada, às vezes grosseira e mal educada, acontece. Mas que adianta, o atendente eletrônico e agradece sempre, antes de pedir sua avaliação: de zero a nove. por favor.

Somos seres humanos e nem sempre toleramos essas babaquices. O serviço de informação por telefonia, Número Certo, que já existe a um punhado de anos e que era ótimo, adotou de uns tempos pra cá um sistema diferenciado. Você diz o nome da empresa que procura a uma voz gravada e quase sempre ela diz “Não entendi”. Só nos resta gritar o nome da empresa novamente. E continuar gritando SIMs e NÃOs como um bobó. Sem distinção desta ou daquela empresa: atendimento eletrônico é o fim. Chato, cretinos, insuportaveis.  

Pessoas mais sujeitas a esse tipo de comportamento instável são aquelas que mais movem o mundo. E os veículos e profissionais da comunicação tendem a gostar mais desse tipo de gente... polêmica. “Polêmica é coisa de jornalista preguiçoso, Lorenzo”, me disse numa entrevista o Gerald Thomas há vários anos.  Um bom ensinamento pra se guardar. E usar, quando for o caso.

Um dos temas mais controvertidos ao longo da história da comunicação tem sido a liberdade de expressão. No auge da contracultura americana, alguém sentenciou uma frase interessante: “A liberdade é uma estátua”. Pano pra manga.

Realmente é apenas uma estátua

Dias atrás postamos aqui um texto falando sobre o Wikileaks, site que atua exclusivamente com o vazamento de informações  públicas mantidas em sigilo. O site foi fechado, aberto, seu responsável (Julian Assange) ficou foragido, se entregou, foi preso, mas parece que está em liberdade ou quase isso. Mas em momento algum, as informações confidenciais que esbarram na delicadeza da geopolítica e da diplomacia internacional, pararam de ser veiculadas.  O assunto continua na crista da onda e a população mundial está sabendo um pouco mais a respeito dos comportamentos de seus governantes. Faz parte do jogo, mas deveria fazer muito mais.


Deixa vazar
Agora, em Cuiabá, um vereador conseguiu que a Câmara aprovasse, na surdina, um projeto de  lei de sua autoria, que burocratiza e ameaça com multas a publicação de comentários, opiniões e desabafos de leitores e internautas em determinadas reportagens. Poxa, até assuntos escabrosos que envolvem a política internacional estão pingando na web e o legislador assume uma postura dessas? Melhor dizendo, os legisladores, porque passou pelo crivo de todos. O projeto depende agora da sanção do Executivo, para ser colocado em prática. 


Não se trata de ser a favor de ataques e xingamentos de forma irresponsável e movidos por motivos escusos. Mas acredito no direito de se expressar livremente e de forma civilizada, assim como, os responsáveis pelos veículos de comunicação devem estar capacitados para detectar o que deve e o que não deve ser publicado, conforme suas linhas editoriais. E depois agüentar o tranco, se for o caso, nas raias da Justiça.


Nessa época de final de trabalhos nos legislativos é perigosa. Muita coisa é votada, diga –se de passagem com voto secreto, no afogadilho e à população só sobra mesmo o direito à perplexidade. Aqui em Cuiabá e em Mato Grosso, de uma forma geral, sempre me assustaram as forças conservadoras da política. Nessas horas os veículos e profissionais da comunicação precisam dar conta do recado e fazer o que tem que ser feito, pela liberdade de expressão. E convenhamos, se o vazamento está na moda, pra que remar contra a maré?  “Nessa casa tem goteira... Pinga no mim”.


    

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