ROMANCE (trecho)

Madona dos Páramos



Um homem fica louco é de si próprio, suas grandezas crescendo demasiadas, fora dos limites, seus venenos supurando, suas escamas, seu emigrar no cardume das noites como um peixe perdido no rio infinito, desguiado dos números dos outros peixes, até dar nas constelações mais suaves do infinito reino das estrelas e suseranias mais sutis, miragens e ilusões das mais verdadeiras e mais reais aparências maiores das razões, filho mais próximo ouvinte de Deus. Bêbado de luz e de razão retrasada, alto poeta, gênio entre idiota e louco... Só eu sonhando... E eu me reconheço muito bem... Venho de longe dentro de mim mesmo, e poucos podem me acompanhar e se acostumar comigo... A presença do Demo é suave e doce como a de um anjo vindo do céu, às vezes até imita mulher... Pressinta-o e sinta-o, ele está sempre ao teu lado como uma proximidade íntima, mas presença intangível, branca. Ele faz parte de ti, não está do lado de fora, assim como Deus é teu coração. 

Pense na tua mãe, lágrimas na noite retumbando – o que é inefável? - rios de estrelas fluindo e transmigrando, para onde? Onde poderias viver outra vida a não ser ao se lado¿  Todas as mães são as amadas de Deus, em multidão, abençoando o mundo. Suas lágrimas do sal, do oceano mais genuíno, são maiores que todos os túmulos lembrados na Solidão, granito e aço erguidos contra todos os esquecimentos. Felizes nós, filhos das nossas mães e dos deuses que com elas se deitaram. Deuses e deusas, nós, titãs filhos da Terra e do Caos, filhos do Acaso. Todas as probabilidades emergem no mar do Acaso. Zagreus. Negror.

dicke

Obra lançada em parceria entre a Cathedral Publicações e Carlini & Caniato. Presente na estante da biblioteca deste site

claudio oliveira

dicke

Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), escritor mato-grossense reconhecido internacionalmente





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