TRECHO

Ficções



Ninguém o viu desembarcar na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno  vinha do Sul e que sua pátria era uma das suas infinitas aldeias que estão água acima, no flanco violento da montanha, onde o idioma zenda não se contaminou de grego e onde é infrequente a lepra. O certo é que o homem cinza beijou o lodo, subiu as encostas da ribeira sem  afastar (provavelmente, sem sentir) as espadanas que lhe dilaceravam as carnes e se arrastou, mareado e ensanguentado, até o recinto circular que coroa um tigre ou cavalo de pedra, que teve certa vez a cor do fogo e agora a da cinza. Esse círculo é um templo em que os incêndios antigos devoraram, que a selva palúdica profanou e cujo deus não recebe honra dos homens. O forasteiro estendeu-se sob o pedestal. O sol o despertou. Comprovou sem assombro que as feridas cicatrizaram; fechou os olhos pálidos e dormiu, não por fraqueza da carne, mas por determinação da vontade. Sabia que esse templo era o lugar que seu invencível propósito postulava; sabia que as árvores incessantes não conseguiram estrangular, rio abaixo, as ruínas de outro templo propício, também de deuses incendiados e mortos; sabia que sua imediata obrigação era o sonho. Por volta da meia noite, despertou-o o grito inconsolável de um pássaro. Rastros de pés descalços, alguns figos e um cântaro advertiram-no de que os homens da região  haviam espiados respeitosos seu sonho e solicitavam-lhe o cuidado ou temiam-lhe a mágica. Sentiu o frio do medo e na muralha dilapidada buscou um nicho sepulcral e se tapou com folhas desconhecidas.

borges

Obra publicada em 1982 pela Editora Globo, com tradução de Carlos Nejar. Faz parte da biblioteca tyrannus e dela foi reproduzido o texto de hoje

borges

Jorge Luis Borges (1899-1986), escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino

 

 

 


Voltar  

Confira também nesta seção:
15.07.18 18h10 » Selva Trágica
13.07.18 17h51 » A origem do mundo
11.07.18 18h00 » Anteontem, de manhã.
09.07.18 18h00 » O salário dos poetas
07.07.18 18h00 » Manhã Perdida
05.07.18 18h00 » O peixe de ouro
03.07.18 18h00 » Ema
01.07.18 18h00 » Capítulo I
29.06.18 17h51 » Joana
27.06.18 18h00 » O capote
25.06.18 18h00 » Caçando carneiros
23.06.18 18h00 » Conheceu, papudo!
21.06.18 18h00 » Pornô Chic
19.06.18 18h00 » Aurélia
17.06.18 18h00 » Pergunta final
15.06.18 17h53 » Ficções
13.06.18 18h00 » Madona dos Páramos
11.06.18 18h00 » A casa dos cem cascos
09.06.18 17h58 » O diário de Frida Kahlo...
07.06.18 18h00 » Os condenados

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet