Cultura malhada nem pensar!

Oratório de Vitoria Basaia (SECOM)
Já está anunciado o novo secretário de Cultura de Mato Grosso, o ex-deputado João Malheiros. A acomodação dos nomes de políticos da co-ligação vencedora nas secretarias de Estado e noutros cargos estratégicos, com salários generosos, é uma prática comum no período pós-eleitoral. Acho que no Brasil inteiro. Ora, porque haveria de ser só aqui em Mato Grosso?
Faz tempo que aboli a leitura do noticiário político entre meus prazeres cotidianos. Por isso, e que me desculpem, não sei dizer se Malheiros foi eleito (ou reeleito) ou não, quantos mandatos já teve como deputado, vereador e, muito menos, a qual partido pertence. Me poupem desse conhecimento, pliss... Não é nada pessoal contra o Malheiros, e até lhe desejo boa sorte. É porque o perfil do blog aqui não exige essas informações periféricas.



Ariano Suassuna, na Literamérica 2005 (SECOM)
O que venho aqui e agora questionar, no estilo Gil Gomes, é qual seria a afinidade de João Malheiros com os saberes e os fazeres culturais de Mato Grosso. Eu mesmo questiono, eu mesmo respondo. Em blog é assim... Bom, secretário de Estado é um cargo do primeiro escalão e então, claro que o critério da escolha foi meramente político.  O que quer dizer que não interessa se o secretário anunciado tem ou não algum tipo de conhecimento técnico da pasta que irá ocupar. Política é assim e ponto final. E o choro é livre. Sempre foi... “Não choro porque meus olhos ficam feios” é só verso solto do Oswald de Andrade, aquele poeta moderno.

"Gil, engendra em gil rouxinol" (SECOM) 

Houve um tempo em que eu militava na chamada política cultural. Política cultural a qual me refiro, não é só o desenvolvimento de programas e estratégias para o setor, mas, também a definição de nomes que devem compor a máquina pública, representando a categoria. Participei da criação do Fórum Permanente de Cultura (ou coisa assim), ia às assembléias, discutia com políticos, reivindicava, questionava etc... Cansei. Me afastei e não fiz tanta falta. Até porque, nunca fui muito esse animal político, que o Aristóteles – aquele mesmo, anunciava, no limiar da Era Cristã. Só que mesmo fora de cena, entretanto, permaneço de botuca. Volta e meia, surjo dando os meus pitacos.

Regina Pena (SECOM)

E a bola da vez, agora, é o João Malheiros. Nem Pitaluga, nem Oscemário (atual chefe da Pasta), os dois que o antecederam. Não tenho bola de cristal para saber como vai se sair o Malheiros. Mas falo agora de dois grandes eventos que passaram batidos nos anos em que Pitaluga e Oscemário estiveram no comando: o Salão Jovem Arte e a Literamérica. Iniciativas que mobilizavam os artistas da plástica e das letras matogrossenses. O primeiro, de grande repercussão regional e já cristalizado em nosso calendário cultural (com vinte e tantas edições), mas esquecido. O segundo, uma articulação ousada que repercutiu internacionalmente, mas que só teve duas edições, em 2005 e 2006. Também esquecido.
Saudoso Dicke (SECOM)
Não estou dizendo que o Salão e a Literamérica são inatacáveis e perfeitos. Apenas que ocuparam um espaço importante em nosso cenário cultural. Eles precisam ser realizados. A melhor forma de fazê-los é conseguir reunir os artistas e produtores dessas áreas, e trabalhar coletivamente. Nessas horas, quando se coloca em cheque a performance de uma Secretaria de Cultura, é que entra em cena a importância do conhecimento técnico sobre a Pasta em questão, e a capacidade empreendedora de quem vai tocar a coisa.   
Outro fato importante é que o novo secretário não seja um mero conformista. Malheiros tem que, acima de tudo, conhecer as aspirações e necessidades mais prementes da classe cultural, para bater duro quando se sentar com Silval e negociar o orçamento, os investimentos, as prioridades etc. As arestas e os problemas no meio cultural de MT estão sobrando e é preciso pegar no gogó do bicho.


Público garantido na Literamérica  e... (SECOM)

no Salão Jovem Arte (SECOM)

Então, é isso aí. Que o Malheiros estude e decore o seu dever de casa, a sua tarefa. Que lute pela cultura de MT, e que não seja um mero administrador de favores, em benefício da imagem do Governo que já está aí, e que ainda não mostrou um arrojo cultural apropriado para este momento. Falei e disse o que penso. Será que é isso mesmo? É só isso?

Claro que há muita coisa ainda a ser dito e escrito a respeito do que é uma política cultural adequada para Mato Grosso, um estado cheio das raízes e matizes culturais, mas que vem mesclando sua população, seus hábitos e costumes com outras gentes, que vieram de outras plagas. Isso é interessante e dá caldo bom. O que é preciso é saber administrar essa coisa toda.  

Malheiros, sem querer malhar: cultura malhada nem pensar!

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