ROMANCE (trecho)

Aurélia



Este sonho, tão feliz no começo, precipitou-me numa grande perplexidade. O que significava? Soube-o só depois. Aurélia morrera.

A princípio, não tive, senão, a notícia de sua doença. Em consequência de meu estado de espírito, senti, apenas, um vago desgosto misturado de esperança. Acreditava eu mesmo não ter, senão, pouco tempo de vida, e dali para frente tinha a certeza da existência de um mundo onde os corações amantes se reencontram. Aliás, em sua morte, ela me pertencia muito mais do que em vida... Pensamento egoísta que a razão mais tarde pagaria através de amargos remorsos.

Não queria abusar dos pressentimentos; o acaso faz coisas estranhas; mas preocupei-me, então, com uma lembrança de nossa união demasiado rápida. Havia lhe dado um anel antigo, trabalhado, cujo engaste era formado de uma opala talhada em forma de coração. Como o anel era grande demais para seu dedo, tive a ideia fatal de cortá-lo para diminuir-lhe a circunferência; não compreendi meu erro senão ao ouvir o barulho da serra. Parecia-me ver correr o sangue...

Os cuidados da arte tinham me devolvido a saúde sem ter ainda corrigido, em meu espírito, o curso regular da razão humana. A casa onde me encontrava, situada numa elevação, possuía um vasto jardim plantado com árvores preciosas. O ar puro da colina onde estava situada, o fôlego primeiro da primavera, as gentilezas de companhias tarziam-me longos dias de calma. 

As primeiras folhas de sicômoros alegravam-me pela vivacidade de cores, semelhantes aos penachos dos galos. A vista que se estendia acima da planície apresentava, de manhã à noite, horizontes encantadores, cujos matizes graduados brincavam com a imaginação. Povoavam as vertentes nuvens com figuras divinas cujas formas parecia ver distintamente. - Tive vontade de fixar os pensamentos favoritos e com a ajuda de carvão e pedaços de tijolos que recolhia, cobri logo as paredes com uma série de afrescos onde se realizavam minhas impressões. Uma figura dominava sempre as outras: era a de Aurélia, pintada com os traços de uma divindade, tal como aparecera, a mim, em sonho. Sob seus pés girava uma roda, e os deuses a cortejavam. Consegui colorir esse grupo espremendo o suco de ervas e flores. - Quantas vezes não sonhei diante de tão querido ídolo! Fiz mais, tentei esculpir com a terra o corpo daquela que amava; todas as manhãs, o trabalho tinha de ser refeito pois os loucos, invejosos de minha felicidade, divertiam-se em destruir a imagem.

aurelia

Um excerto da obra acima, publicada pela editora Ícone, que consta entre os nossos livros, é o que reproduzimos nesta edição. A tradução é de Elide Valarine

nerval

Gérard de Nerval (1808-1855), escritor de destaque da literatura francesa no século 19

 

 

 


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