TRECHO

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Minha família foi parar numa cidade de Minas chamada Curral de Dentro. Nós éramos muito pobres, e eu fui trabalhar na roça com meus pais. Às vezes eu pensava que a vida não tinha o menor sentido mas logo depois não pensava mais porque a gente nem sabia pensar, e não dava tempo de ficar pensando no que a gente nem sabia fazer: pensar. Eu já estava com quinze anos e sempre a mesma vida. A única coisa que me alegrava era ver de evz em quando a Corina, filha do seo Licurgo. Ele tinha uma pequena farmácia e todo mundo se tratava com ele. Corina também tinha quinze anos. Peitos grandes, cabelos negros cacheados, bunda redonda, dentes lindíssimos. Dentes lindíssimos era uma coisa muito difícil de ver em Curral de Dentro, porque lá não tinha dentista e quem arrancava os dentes por qualquer toma-lá-dá-cá era Dedé-O Falado. O nome dele era esse porque como todo mundo tinha que arrancar sempre um dente ou dois ou todos, sempre se falava muito no Dedé. Ele não tinha dente algum. Era moço muito delicado, maneiroso, e morava com a mãe. Ela também não tinha dente algum. Todos os domingos eu tentava ver a Corina na parte da manhã. Um domingo cheguei na farmácia e ouvi vozes altas e gritos e choros que vinham lá do quartinho de trás onde se tomava injeção, e reconheci a voz do seo Licurgo e o choro de Corina. Ele dizia que agora, depois de as pessoas terem visto Dedé-O Falado de mãos dadas com ela, ela não ia mais ficar na cidade. Ela ia ficar definitivamente na casa dele, do seo Licurgo, na roça, morando com a velha Cota, que tomava conta do jumento e da casa. Eu só ouvia agora os soluços dela, e nunca tinha ouvido o seo Licurgo gritar daquele jeito. Fiquei desesperado e gritei: por favor, seo Licurgo, para com isso. Ele saiu do quartinhoa lá de trás, a cara muito vermelha, e perguntou o que é que eu queria. Falei que queria conversar um pouco com a Corina. Ele me disse que a Corina nunca mais ia falar com ninguém, porque moça desavergonhada tem que ficar calada e trancada. Falei o mais que pude com seo Licurgo, que a Corina era uma mocinha muito direita, que as pessoas sçao faladeiras e têm muita inveja da beelza e da castidade. Seo Licurgo puxou os óculos até a ponta do nariz, me olhou da cabeça aos pés e perguntou o que é que eu entendia de castidade. Eu disse que as santas eram pessoas castas, que eu havia lido isso num livro, uma espécie de catecismo que os meus pais tinham guardado, e que era um livro que a minha finada avó havia nos deixado. Pois olha, Edernir (esse é o meu nome), posso até estar errado, mas acho que você entende tanto de castidade como eu entendo de logaritmo. Ele não falou desse jeito, ele tinha lá o jeito mineiro de falar, mas agora não me lembro mais. Mas, continuando, achei incrível a palavra e perguntei o que era aquilo, o que era logaritmo. Ele respondeu que era uma coisa bastante enredada, coisa dos números, de aritmética, mas que nunca mais ele esqueceu a palavra, e achava a palavra muito bonita, tão bonita que deu o nome de Logaritmo para o jumento que vivia lá na roça. "É um belo jumento, Edernir, mais escuro que o normal, quase preto, e de pelo muito lustroso, eh pelo bonito, parece até asa de urubu, quer saber Edernir, o pelo do Logaritmo é parecido com o teu cabelo."

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Do livro acima (Editora Globo), presente na estante do lar tyrannus, foi reproduzido este txt

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Hilda Hilst (1930-2004) foi poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira

 


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