CRONICONTO

Conheceu, papudo!



Nem queria saber da confissão. Pé-de-Chumbo estava lhe roendo o calcanhar dos lucros. Ainda, por cima, esse peso baço de ver o tempo ruim de claridade, nublando a ruazinha retorcida em seus calombos, apelido de Beco Torto. Isso lhe apertava um viver de agonia, numa mistura de despeito, dor de canela ou remorso mesmo. Foi nessa azucrinação do sentimento que desempregou Pé-de-Chumbo. Não tinha prova, é verdade; só a força de sentir a certeza:

-Me robano, canalha, filho...!

Num raspe, o pixote pranchou fora, azulou. Assim, agora, ficou aquilo: quartos de boia, lombos, rabadas, fígados, buchada, corações rendados de sebo, pendentes, nos ganchos do Açougue Balança Leal, de Xisto Cana Verde. Em cima do toco preto (cerne de coração-de-negro, com uma baita broca no centro, onde Pé-de-Chumbo escondia raspagens, que o fedor de restos finos atraía as formigas) a chaira, em cruz, com carniceira-mestra. Ambas, e a serrinha-borboleta pedindo corte, ou fricção de afiar a utilidade. Uma balança antiga, marca Roberval, na ponta do balcão de cimento branco, retrincado de lavação, luzia dos pratos um brilho de uso, do avental, tão bem alvo, de saco de aniagem. Cana Verde sabia estimar, justiça çhe seja feita! Mas a freguesia arisca passava, parando, fusquinhando o rejeito. Dali, se ouvia, mais adiante, o matraquear de provocação do Mané Tenteia, endinheirando a concorrência, bem no cruzamento da esquina, dando frente num larguinho em formação de cunha, da Rua do Meio e Beco Torto, ponto de ouro para seu comércio de carne verde. Por isso era o mais conhecido, apesar de novato.

-Também, pudera, com um nome rico desse: Açougue Ponto de Ouro, de chama freguês, de chusma, quem que aguenta co'isso! - gungunava Cana Verde, no de cima do seu acocoramento. Só que essa sorte do outro foi arte dele mesmo, como a vizinhança ficou sabendo, pois, de tanto querer prejudicar Mané Tenteia, e tanto fuxicou, que seu Romualdo exigiu a sala de volta, a da Rua dos Porcos, de freguesia fraca. E, no que assusta, caiu do céu, de luva, a oferta, na hora mais sofrida, que Mané Tenteia nem duvidou do preço pela metade. Alugou o Ponto de Ouro, aqui perto de Cana Verde. Já ia de vento em popa, o açougue sortido, apinhado, não fosse a besteira daquela amigação, sem desconfio, com a Mestiça, raparigona catita que entortou o espinhaço dele, num piscar d'olhos, de tanto fricote que fazia no Cabaré do Colorido. Tenteia nem podia trabalhar, só dando guarda, de costela grudada nela, por causa do visgo dos outros... Nisso de ficar de queixo caído, seu empregado ficou fiando a mercadoria, fia que afia a faca na chaira, rachando a carnadura de Mané Tenteia. Rodou feio. Puva. Mas estava ali, de novo, na testa do açougue, se recuperando do aperto de tantas contas que Mestiça semeou no comércio do bairro, tudo em seu nome. A paixão roía-lhe. Moía-lhe uma saudade do distante. Por causa dela, cansou de bravatear:

-Ralo a bunda no caco de vidro, mas não choro o sangue derramado!

O pessoal do pau-baixo sabia e comentava, e, de tanta repetição, ficou fato comum. Pois não fosse o sumiço, sem nem endereçar uma despedida, a piora de Mané Tenteia ia pros cornos da lua, oco só, e, adeus Ponto de Ouro! Bem que Xisto Cana Verde cansou de festejar a ruína do adversário, e declamava:

-Conversa, seo, Tenteia é um beco sem saída de dívida de raparigagem. Ele tá tenteando é no bolso dos mascates, de quem a Mestiça comprou, sem dó nem piedade, do bom e do melhor, pra seus trinques: seda pura, sabonete Guassatonga, brilhantina, extrato, pó-de-arroz Lady, e demais de intimidades.

Realmente, bugigangas e pechisbeque faziam de Mestiça a vitrine ambulante mais cobiçada do Colorido, sem levar em conta a florzona vermelha, que fingia um cai-caindo do tope do laço de fita, empresilhado nos cacheados. Não faltava alguém para tentar aparar a flor fingida, fingindo cair num volteio do corpo moreno de Mestiça. A desculpa vinha sempre da flor, mas o volteio requebrado é que mostrava o V-8 da calcinha, assinalado no vestido fino, lustroso, justo, colado no violão de carne murciça...

Muito tempo depois, nas rodas de fim de farra, lá no beirachão da zona, mais conhecido como boferagem do Baú, ainda se ouvia um, outro, se lembrando do discurso repetido de Mané Tenteia. O orgulho da conquista sem rival sopitava-o; por isso cantarolava seus rótulos e conceitos, rodeado de amigos e cervejada:

-Revólver bom é Smith
  Carro que presta é Ford-bigode
  Extrato que dá doidura, só água de milícia
  Mas mulher de verdade é a Mestiça Paraguaia!

Depois, faliu. Falaram! Conheceu, papudo...!

japa

Do livro acima, publicado pela Carlini & Caniato, que integra a biblioteca tyrannus, veio a prosa de hoje

freire

Benedito Sant´Anna da Silva Freire (1928-1991), um dos maiores autores mato-grossenses em todos os tempos

 


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