ROMANCE (trecho)

Caçando carneiros



Quando acordei, eram nove da manhã. Ela já não estava ao meu lado. saíra provavelmente para comer algo e, aproveitando, fora direto para sua casa. Não havia nenhum recado. No banheiro, encontrei seu lenço e suas roupas de baixo secando.

Peguei um suco de laranja da geladeira, bebi e torrei fatias de pão de três dias atrás. Tinham gosto de argamassa. Da janela da cozinha, avistei as espirradeiras do quintal do vizinho. Alguém treinava escalas ao piano num lugar distante. Tocava como se descesse uma escada rolante que sobe. Três pombos rechonchudos pousados num poste arrulhavam sem parar, sem nenhum sentido. Isto é, talvez seus arrulhos fizessem sentido para eles. Quem sabe o calo no pé doesse, e por isso arrulhassem sem parar. Visto que pelo lado deles, eu é que podia não fazer sentido.

Quando terminei de empurrar as duas fatias de pão torrado para a o fundo da garganta, os pombos já tinham desaparecido, restando apenas o poste e as espirradeiras. De qualquer modo, era manhã de domingo. O jornal estampava a foto colorida de um cavalo que saltando uma cerca viva. Montava-o um jóquei pálido usando um boné preto. O jóquei fixava um olhar desagradável na página ao lado, onde havia uma interminável descrição de técnicas de cultivo de orquídeas, cada qual com sua história. Certo rei de certo país perdera a vida por causa de uma orquídea. Há uma aura de fatalidade nas orquídeas, informava o texto. Todas as coisas do mundo têm seu lado filosófico e fatal. 

Seja como for, eu estava me sentindo muito bem porque decidira sair em busca do carneiro. Percebia impulsos vitais chegando-me até a ponta dos dedos. Era a primeira vez que me sentia tão bem desde o dia em que eu cruzara a barreira dos vinte anos. Lancei os pratos sujos na pia, dei comida ao gato e liguei para o homem do terno preto. Ele atendeu depois do sexto toque. 

-Espero não tê-lo acordado - eu disse.

-Não se preocupe, sou madrugador - respondeu - E então?

-Quais jornais você costuma ler?

-Todos os de distribuição nacional e oito regionais, embora os últimos só me cheguem às mãos no fim da tarde.

-E lê todos?

-Faz parte do meu serviço - disse o homem estoicamente. - E então?

-Lê também as edições de domingo?

-Leio - respondeu.

-Viu a foto do cavalo no jornal desta manhã?

-Sim, vi a foto do cavalo - replicou o homem.

-Não lhe parece que cavalo e cavaleiro pensavam em coisas totalmente diferentes?

Através do receptor, o silêncio invadiu a sala como claridade em noite de lua nova. Não consegui ouvir sequer a sua respiração. Silêncio total, de fazer as orelhas arderem.

-Foi para falar disso que você me ligou? - perguntou ele afinal.

carneiros

Da obra acima, publicação da Editora Objetiva alojada em nossa estante, foi reproduzido o texto de hoje. Tradução de Leiko Gotoda

haruki

Haruki Murakami nasceu em 1949, no Japão. É escritor e tradutor e seus livros têm ótima comercialização em seu país e pelo mundo. É traduzido para mais de 50 idiomas

 


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