ROMANCE (trecho)

Manhã Perdida



Paulo deixara, mais cedo que de costume, o conforto da casa pelos trabalhos do gabinete, pois estava resolvido a liquidar, nesse dia, a encantada questão da concordata do Freitas. Ao passar em frente ao portão do major Assis, viu os pequenos brincando e deu-lhes uns caramelos, como era de seu hábito. Menos de nove horas, já o sol ardente punha fulgurações vivas de luz nas pedras da calçada e crispações súbitas nos nervos, dando a impressão de um dia tórrido e abafado. Subiu, quase correndo, a velha escada de madeira, gasta e escurecida pelo tempo, e ao empurrar a porta, deu com o Cardozo, o velho solicitador, e o seu primo Léo, que o aguardavam. Dispunha-se a sentar-se, quando o primo lhe perguntou se não sabia ainda o que havia acontecido.

-Que foi? Indagou, calmo, mas ao notar a feição grave do Léo, uma ideia lhe veio, repentina:

-A Glorinha morreu?

Sabia-a bem doente, a sua prima, e dali o rebate súbito que lhe viera nesse instante.

-Não, respondeu Léo, quem morreu foi mãe Roberta.

-Mãe Roberta? Mas, como? Ainda esta noite estava boa, conversando na sala de jantar.

Pois morreu esta manhã. Morte repentina... Logo depois que tomou o guaraná, cedo como era seu costume, começou a sentir-se mal... Uma apoplexia quase fulminante.

Paulo, já de pé, visivelmente nervoso, endireitando a gravata, exclamou:

-Que desastre! Eu vou até lá, preciso vê-la... Se vocês quiserem podem ficar, ou então... Pobre mãe Roberta! E Glorinha já sabe?

-Não era possível ocultar-lhe... Você bem vê, ali, na mesma casa...

-Que desastre! Repetiu Paulo, fechando a pasta, de que retiraram um maço de papéis para entregar ao Cardozo.

Se vier o André, o Andrezinho, sabe? Você lhe dê estes papéis, dizendo-lhe que hoje não me é possível tratar de nada... Mas pode assegurar-lhe que o seu caso vai bem encaminhado.

Já falei ao Curador, que está concorde. E adeusinho. Quando vocês quiserem descer é só avisar o Nazário na porta que feche o gabinete.

-Eu vou com você, disse Léo. Pelo caminho, continuou Paulo indagando as circunstâncias da morte inopinada, a impressão produzida nas pessoas de casa e as providências tomadas para o enterro, que seria no dia seguinte, cedo, pois mãe Roberta sempre dissera que queria passar uma noite em casa, depois que morresse e, assim, seria satisfeito o seu desejo.

Quando chegaram à porta de casa, Paulo inquiriu  se Álvaro, seu irmão, já tinha sido avisado. 

-Mandamos lá, mas só encontraram a Naninha. Álvaro estava no serviço... Trabalha agora em dois expedientes, para ver se ganha mais um pouco. E enquanto Léo descia a rua, Paulo, a passos rápidos, galgou a escadinha da entrada e penetrou no corredor amplo e sombrio do velho casarão dos Monteiros.

mesquita

Obra expressiva da literatura de MT, alojada na biblioteca tyrannus, da qual, foi reproduzida a presente prosa. Livro editado pela Academia Mato-Grossense de Letras

mes

José Barnabé de Mesquita (1892-1961), cuiabano, foi poeta, romancista, contista, ensaísta, historiador, jornalista, genealogista e jurista

 


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