ROMANCE (trecho)

O salário dos poetas



O general pensava em quantos cadáveres desciam o rio desde há muito, com um prego dos grandes martelados na cabeça, depois começou a pensar primeiro no delírio do dilúvio de féretros que o assediavam e depois no cachorro que morreu de sede, embaixo das raríssimas orquídeas tão belas de uma violeta mutante em azul sonhado que floresciam no tronco de uma enorme árvore frondosa, com a boca enorme aberta, o arcabouço em arcada desfalripada, pedindo água para o mundo que o cercava em silêncio, arreganhados os dentes brancos para uma torneira que pingava uma única gota de água de vez em quando, como o mais antigo dos suplícios chineses sob aquele doloroso sol de extrema sufocação de agosto. Qual era o maior suplício do mundo? Quem quer ficar para semente que anote os que morreram torturados: foram milhões, como os nacional-socialistas do Velho Mundo e de outros mundos noticiados ou não noticiados. A Anistia Internacional é que é a inimiga pública número um dos chefes de Estado. Sorria e continuou sorrindo até ancorar sua ideia num porto diferente, sonhoso: todos ali falando de uma tal cigana que vivia lá nas tendas da beira do rio, entre os bandos de ciganos chegados de suas andanças de judeus errantes, não era de hoje que ouvira falar certas histórias inverossímeis acerca de sua imensa beleza que abarcava belezas e belezas flutuantes e célebres, a rainha, a chamavam, ele não sabia o nome, diziam que era como Helena de Troia, que além de ser a mais bela das mulheres já vista por inimeditados olhos humanos, quem via pontificava unânime, era milagrosa como uma santa, trazia em si o poder inédito de curar, o estigma inato da mais alta formosura, imperatriz da fortuna. Aquela ideia vagava sempre por sua cabeça, e ele nada de aproar nela, coisas assim que passam voando no nariz da gente, e só quando quase nos abalroam de tanto voar é que as pegamos e as enxergamos e lhe indagamos, lhe examinamos de perto para ver de que se trata, se podemos retirar algum suco de sua serventia secreta: começou a observar aquela ideia de perto sem pé nem cabeça: quantas vezes não tivera no exercício do grande poder corruptor absolutamente todas as belas mulheres que queria? Mas todos em seu redor comentavam e enfatizavam de vê-la passar pelos arredores, uma beleza tão enorme que aprofundava os hemisférios desconhecidos de todos os sonhos aprofundados no futuro abissal, e quando os comentários são assim descontrolados, desbragados, descompassados, fora de toda rota dos costumes, provocando diferentes diapasões, urgia pesquisar melhor. 

dicke

É do livro acima o trecho reproduzido nesta edição. Obra da biblioteca tyrannus, edição do autor, produzida sob a coordenação de Lorenzo Falcão

claudio oliveira

dicke

Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008)

 

 


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