ROMANCE (trecho)

Anteontem, de manhã.



Voltei a pensar na “solução final”, por mais que me horrorize essa expressão “solução final”. Sei que foi usada pelos nazistas para dar cabo em alguns milhares de judeus. . Mas estou a falar ad solução para o meu problema. Não se aflijam. Estou a falar do que me concerne, isto é: a minha própria e precária existência.

Basta, portanto! Chega de meias palavras! “O negócio”, a coisa”, “o problema”, “o assunto” que ocupa todo o espaço disponível na minha memória é este: o suicídio! Nada como chamar as coisas pelo nome correto. Tudo fica mais claro se damos logo nomes às coisas.

Nesse ponto, entretanto, deparei-me com uma contradição, um paradoxo, para ser mais preciso. Odeio qualquer tipo de violência, até mesmo contra os cães. Abomino o sofrimento de quem quer que seja e até pisar numa formiga me causa certo constrangimento. Talvez isso se deva às reminiscências do meu tempo de estudante, quando o meu bisturi fez um estrago no pescoço do gordo de quem já lhes falei. E como então hei de perpetrar tal coisa comigo mesmo? Foi pensando assim que comecei a arquitetar um plano mais sutil. Eu sabia que uma injeção de potássio na veia poderia pôr fim a todas as minhas questões, a todos os equívocos, aos desenganos, às frustrações e até mesmo ao meu atormentado pensamento. E conseguiria, dessa forma, livrar-me do fardo de viver sem qualquer tipo de sofrimento, sem violência, por assim dizer? Uma injeção de potássio e pronto! Estaria tudo liquidado!

Eu ensaiava esse tipo de raciocínio, pensando, pensando ter encontrado a saída para o meu dilema. Meu objetivo estava definido havia um bom tempo, restava-me apenas encontrar a maneira de executá-lo, e por aí, por esses caminhos tortuosos, fui me dando conta do paradoxo em que estava metido. É líquido e certo que a essa altura meus pensamentos eram lúcidos, coerentes e, por isso mesmo, me dei conta de que estava vivendo uma grande contradição entre meus propósitos e aquilo que eu defendia com veemência – a não violência.

Nenhuma madre Tereza, nenhum Gandhi, apenas abomino a violência em qualquer das suas formas – oh! Meu Deus! – o homem jamais será dono do seu próprio destino!

Ora, uma criatura que se compraz em observar a natureza, que adora o sol e se comove com a fragilidade das mocinhas desamparadas, que chega a sonhar com viagens para lugares longínquos e desconhecidos, que se extasia ao contemplar os vitrais de uma antiga catedral, capaz de admirar desde o mais rude artesão até uma tela de Van Gogh, um Hans Holbein e seu Cristo Morto, que admira as coisas simples como o belíssimo voo das gaivotas sobre o cais enevoado de Santos no inverno, a imensidão do mar, o mistério do funcionamento do aparelho digestivo, teria que passar por mais do que uma revolução espiritual, no mínimo deveria sofrer uma grande transformação mental, até chegar ao ponto de pôr termo à própria vida. (Neste instante acabo de ser pego na minha própria armadilha!). Repararam que não usei a palavra suicídio? Alinhavei um mal disfarçado “pôr fim à própria vida”. Uma figura de retórica, que me apresso a identificar. A única explicação – vou dizê-la com todas as letras: é medo! É de dentro do meu medo que faço esse contorcionismo verbal para alongar os meus dias. Cada palavra, cada vírgula, cada parágrafo, um sinal gráfico qualquer, é uma maneira de escapar do meu destino, ao que tudo indica inexorável. 

amancio

Da obra acima, que compõe a biblioteca tyrannus, uma primorosa edição da LetraSelvagem, foi reproduzida a prosa de hoje

amancio

Edson Amâncio, natural de Sacramento (MG), vive em São Paulo. É neurocientista e ficcionista e, nas duas searas, vem realizando uma profunda prospecção nos "modos difusos da alma"

 


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