ROMANCE (trecho)

A origem do mundo



Terça-feira de manhã, observei-a com a máxima atenção, com um grau de atenção que nunca, desde que a conheci há cerca de trinta anos, quando ela estava com seus incríveis vinte e poucos (sempre, teria dito Alfredo Arias, quando se olha para eles coma perspectiva dos sessenta ou setenta, são incríveis), e eu, em meus verdes quarenta, tinha olhado para ela. Parece-me que ela não se deu conta. Se notoun alguma coisa estranha em mim, atribuiu-a, suponho, aos acontecimentos da vérspera. Ela, por seu lado, estava acabada, de aspecto muito cansado, mas não podia dar a isso uma interpretação especial. Tínhamos dormido mal, ela e eu, como era lógico. Vou ter de me armar de paciência, pensei, e observá-la em circunstâncias diferentes, normais e anormais, sem abandonar nunca o estado de alerta máximo. Eu havia notado, nos últimos meses, que meu frescor intelectual decaía à tarde, que minha capacidade de atenção e minha memória mostravam sintomas de cansaço, mas agora tinha de fazer um esforço de vontade permanente. É o que se chama, pensei, de tirar forças da fraqueza, de uma fraqueza, era preciso admitir, cada dia mais opressiva. 

À tarde, fomos ao velório, num escritório lúgubre da associação de jornalistas, onde colocaram o caixão sobre uma mesa qualquer, coberta com um pano preto, rodeado por duas coroas murchas, a de uma associação chilena e a de uma agremiação francesa de alguma classe, sem maiores ornamentos. No fundo de um corredor, escreviam à máquina em uma sala e escutava-se de vez em quando um telefone, uma voz sonolenta que atendia. Passavam com passo firme homens com camisa de mangas arregaçadas, secretárias de óculos, gordinhas, e limitavam-se a dar uma olhada rápida, deliberadamente neutra, à sala funerária. Silvia fez uma observação curiosa, que não revelava nada, claro, nada do que interessava, mas que me pareceu, de todo modo, curiosa. Disse que os funerais sem padres, sem ornamentos religiosos, sem liturgia, sem cânticos, eram de uma tristeza, de uma mesquinharia, corrigiu-se, quase impossível de resistir.

-Está querendo me dizer que deveríamos acabar católicos?

Ela olhou o caixão, olhou as paredes sujas, lascadas, as manchas da pintura, as seis ou sete pessoas amigas que tinham se reunido: o gordo Manzano, Abelardo Manzano, e mais três ou quatro chilenos: Alfredo Arias, nosso amigo espanhol, que tinha a extravagância de ter nascido na ilha de Lanzarote; um poeta da Guatemala; uma ex-amante francesa de Felipe, Madame Léotard, que tinha se tornado sua amiga fiel, que ajudava, generosa... Olhou tudo isso, Silvia, e encolheu os ombros.

-Para mim - disse-me - faça uma missa com três padres, com canto gregoriano, incenso, coroas de flores, crepes fúnebres...

-Mas se você já vai estar morta, o que importa isso?

edaw

Da obra acima (CosacNaify), com tradução de José Rubens Siqueira, inclusa no acervo literário do tyrannus, foi reproduzido o texto desta edição

edwards

Jorge Edwards Bello é escritor e diplomata do Chile, grande nome da literatura chilena contemporânea

 


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