ROMANCE (trecho)

Selva Trágica



 

Casimiro reuniu cinco homens bons mateiros, passou a mão no pescoço do seu cavalo a dizer-lhe palavras boas, bem baixo, na orelha. E partiu. Desde os primeiros passos acavalou suas pisadas nos rastros dos fugitivos. Sossegado. Aquele era um trabalho fácil. Quando o sol girou da sua nuca para a testa já saía do do pindobal queimado. Ao dar com o caminho bem marcado pelos fugitivos, os homens quiseram forçar o passo. Segurou-os:

-Chiit! Chuut! Devagar! Cavalo rompedor é o que vai menos longe. Quem tem o pai na forca são eles e não nós.

-E a pressa? Não quer entregar logo o recado?

Cuspiu a masca de fumo ensalivada, esfregou a língua nos dentes, bochechou com água fresca e tomou nova masca, num canto da boca. Abrindo a marcha, ensinou:

-Quero é fazer a coisa bem feita, com muito respeito pela saúde minha e de vocês. Nunca que eles nos escapam.

-Puuf, Casimiro, vê lá que eles nos aguentam no primeiro tranco!

-Claro que é assim! Mas o gostoso é liquidar o caso sem encostar nossa mão na grelha. Fugiram esta noite e ainda correm com o fôlego quase inteiro. Veja os cortes no mato, tudo podado com um golpe só. Isso quer dizer força no braço, decisão na batida. Se a gente encostasse neles agora, eram capazes de dar briga. Mas isso não dura. Daqui até o rio só existe taquaral cerrado e pindobal. Vamos deixar que gastem o entusiasmo. Até um cego é capaz de seguir a pista que deixam. O Augusto é homem pra empreitada assim, mas os outros dois não são companheiros que lhe ajudem.

Os outros entenderam. E alegraram-se:

-Bueno, pois vamos num acuado manso, não é?

Era isso.

-Assim é que é. Quando eles perderem o fôlego e a calma, damos o golpe. Você, correntino, já saiu antes feito comitivero?

-Venho da primeira vez, sim senhor.

Os outros riram. Conheciam a intenção do Casimiro.

-Ah! Pois então tem direito ao tranco mais importante. Se aí os companheiros não forem contrários é você quem mata os dois. O Augusto fica pra mim porque é o cabeça do grupo. Que tal?

Ao correntino a promessa não agrada.

-Matar? Mesmo matar?

Riem com estrondo demoradamente. Casimiro deixa rir à vontade. Depois, explica:

-É costume, chê! Fugitivop de erval só escapa com vida quando tem parte c'o diabo! É que nem uma guerra, sabe?

O correntino acenou que sim. Isso, ele sabia. Palpou a testa e a nuca para ver se se percebia o suor que lhe manava.

Passado o pindobal havia outra mata, umedecida por larga cabeceira de rio. De longe podiam enxergar os sinais da passagem dos fugidos. Seguiam em passo viageiro, calados e seguros. O sol esturricava as copas, mas embaixo era quase frio e o solo úmido prendia as botas.

-Duas horas abrindo caminho neste mato acaba com as forças do macheteiro mais sacudido - observou o que ia à frente.

O Casimiro concordou. E voltou a interessar-se pelo correntino:

-Antes de entregar a encomenda diga muito obrigado pro caminho que eles abriram. Onde se viu gente mais louca?

-Vá lá! - diz o outro. -Na fugida morrem depressa, no erval devagar. O sujeito pode escolher, não pode?

No começo da tarde, com boquejos de água entre pedras, esbarraram na trilha de mulas riscada no lombo do morro. 

-E esta? Quem sabia deste caminho? É novo? Aonde leva?

Ninguém sabia. Casimiro distribuiu os homens. Dedo no gatilho e olho aceso, desceu para a trilha ladeado pelo rastreador correntino:

-Sabe o que isto quer dizer?

-Claro! Changa-y!

-A Companhia tem um mandamento contra esses ladrões de erva: dar em cima até acabar com eles. O prêmio é bom quando se encontra ranchada deles.

O correntino ia achando que assim lhe davam demasiado serviço:

-Mas estamos de caminho sobre o Augusto, não é?

-Chê! Que custa uma festinha antes da festa grande?! Se o rancho for perto fazemos uma limpeza rápida! Pelas pisadas das mulas não é longe.

Abriram-se em leque largo. Silêncio fechado. Quando haviam avançado bastante começaram o mbureo¹:

-Fi... juuuu... ijuuuu...

A mata já não teve mistério com seus gritos de chamado e orientação. Por fim o correntino esbarrou no rancho. Antes de entrar no pátio mbureou o sinal da reunião. Cautelosamente os outros saíram para o claro. Foi-lhes fácil perceber p abandono do rancho. O Casimiro até pôde contar o que sucedera ali:

-Saíram esta manhã. Levando o que tinham a levar. O Augusto esteve aqui, de propósito ou por acaso. Os changa-y entenderam que a gente também viria e fugiram.

-Bueno! E que fazemos?

-O certo seria por fogo e festejar. Ou dar uma corridinha pra lhes cocegar a barriga da perna! Mas a fumarada avisaria o Augusto da nossa posição. E estamos no mato para apanhar o Augusto. Temos que apressar o passo porque decerto aqui lhe deram comida e armas. O negócio pra nós já não vai ser um passeio.

Rompeu a andar. No fim da picada avisou:

-Daqui até o rio o mato é ruim, de três fios. Quase só taquara. A gente ouve alguém caminhando a duzentos metros. Ponham atenção nos olhos e bala na agulha. Vamos tirar nossos pares que a dança está começando.

selva

Do livro acima (Editora LetraSelvagem), que habita as prateleiras do Tyrannus, vem a prosa de hoje

donato

Hernâni Donato (1922-2012) foi um escritor, historiador, jornalista, professor, tradutor e roteirista brasileiro. Ocupou a cadeira 1 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e a cadeira 20 da Academia Paulista de Letras



 

 

 


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