ROMANCE (trecho)

Pedra Canga



Na noite de agonia do Dr. V. uma tempestade nunca vista por aquelas bandas derrubou árvores, casas, galinheiros, chiqueiros, postes de luz. O uivo do vento era tão forte que os animais domésticos , assustados, queriam se esconder dentro de casa, outros fugiam apavorados não se sabe para onde. Teve até o caso da cabra de estimação do pedreiro Augusto Campo Belo que nunca mais foi encontrada.

-A cabra ficou no meio de um redemoinho furioso e o Coisa-ruim carregou ela pra debaixo da terra - disse Ritinha Três Orelhas.

Um raio caiu bem em cima da casinha de luz deixando o bairro de Pedra Canga completamente às escuras. O povo, morrendo de medo, se pegou com os santos. Só se via gente ajoelhada em frente dos oratório, rezando ladainha, pedindo a Santa Bárbara pra acalmar o temporal, fazendo promessas - algumas impossíveis de cumprir - em troca do atendimento de suas orações.

Maria Belarmina, 17 anos depois, discordaria do início desta narrativa. 

-Não era de noite não. Tudo aconteceu por volta das três horas da tarde. O mundo escureceu de repente, de modo que a gente precisou acender lamparina pois naquele tempo não tinha luz elétrica, não senhora. O temporal foi feio e não foi desses mandado por Deus. Tinha alguma força maligna comandando a ventania. Já escutei tempo uivar muitas vezes mas nunca daquele jeito. Parecia uivo de cachorro louco ou então lobo esfomeado. Tinha também barulho de tambor, risada, choro, grito, xingamento, tudo isso misturado com um fedor insuportável  que a gente teve que ficar com o nariz tampado.

-Era o reino do Cujo tomando conta da Terra - disse Ludovica - obviamente evitando pronunciar o nome do Chifrudo. 

Neco Silvino, marido de Maria Belarmina, jurou que tinha visto uma mula sem cabeça, relinchando, chispando fogo, em louca disparada, varar a cerca da Chácara e se embrenhar pelo matagal em direção à casa dos Vergare. Muitos acreditaram cegamente em Neco Silvino, velho pescador, contador de histórias de assombração, familiarizado com as coisas do além.

-Não corro sem ver do que - repetia sempre.

Mas o meu avô Zé Garbas, violeiro-cantador, conhecido nas redondezas como "Boca do Inferno" estava lá, pronto pra desmentir o pescador.

-Que nada, esse aí eu conheço desde criança, é um mentiroso de nascença.

E pra reforçar o que disse, pegou a viola de coxo e o verso veio fácil:

Neco Silvino pescador de vento
não queira me enganar não
Te conheço desde menino
inventando histórias de assombração
Mas todo mundo lá na escola
sabia que você era um cagão.

pedra

Trecho da obra acima (Editora Philobiblion), que integra as estantes do tyrannus: a prosa de hoje

terez

Tereza Albues Eisenstat (1936-2005), um dos mais expressivos nomes femininos da literatura mato-grossense

 


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