CONTO

Um subornozinho



O carro não estava tão velho assim, mas não estava nos conformes cem por cento e foi isso que motivou o guarda de trânsito a abordar e exigir que os ocupantes encostassem e descessem do veículo. Só faltou mandar o motorista e o senhor que estava ao seu lado  colocarem as mãos na cabeça e afastarem as pernas pra dar uma geralzona. Poucas coisas são mais humilhantes do que uma revista corporal, embora elas sejam necessárias, às vezes. O carro estava com problema no lacre da placa. Cabia, inclusive, apreensão do veículo, segundo o da farda. Que coisa mais desagradável de acontecer, como se não bastasse o engarrafamento quilométrico. Estava claro que aquele sujeito e o outro, que devia ser seu pai, não eram marginais e o guarda sabia disso, mas tinha ordens a cumprir. E ordens são ordens. E tinha também, certamente, uma família, a qual sustentava com um salário minguado. Assim é a vida: apesar de tudo, bem melhor do que a morte, dizem. 

-Mas o carro vai mesmo ser apreendido? Não tem outro jeito? - foi dizendo o motorista ao guarda, depois de estacionar o carro na calçada e descer. Seu pai desceu do outro lado e veio na direção deles, como que para se inteirar dos fatos. Era revoltante, mas era isso mesmo. Leis e seus cumprimentos à parte, aquele trio de filhos de Deus sabia muito bem que as coisas nem sempre precisam ser resolvidas ao pé da letra, em termos de legislação. Respondeu o da farda:

-Não tem não. O veículo tem mesmo que ser apreendido e essa irregularidade é grave.

O policial foi logo tirando do bolso seu bloquinho de multas. Que dor de cabeça, que trapalhada, pensavam pai e filho, que estavam indo para um compromisso social. Os dois eram, por assim dizer, honestos, embora também aceitassem a hipótese de que há sempre uma maneira honesta de burlar a lei. Cada um no seu estilo e de acordo com os valores de suas diferentes gerações. Trocaram rápidas palavras e foi assim que o filho explicou ao pai o que acontecia, uma vez que ele era o motorista e o guarda tinha se dirigido diretamente a ele. Sem muita mesura, mas respeitosamente, confessou ao pai suas reais intenções. Subornar o guarda não era a coisa mais linda e cheia de graça a fazer, mas... Fazer o quê? Foi meio constrangedor. Esse era o tipo de atitude que o pai nunca ensinara ou estimulara o filho a fazer. O pai discordou, mas já antevendo que iria concordar futuramente. E ficou com raiva do guarda. Resmungou enquanto o guarda chegava junto. E ficou a maquinar possíveis vinganças contra o policial de trânsito, que se mostrava "por um quero" pra fazer um acerto por fora. O jeitinho brasileiro entrou em ação e o motorista do veículo irregular jogou a isca, dirigindo-se ao representante da lei: 

-Vamos resolver isso de outro jeito. Você sabe que não sou um marginal e que foi só um relaxo. Amanhã mesmo vou arrumar essa história do lacre e o carro vai ficar ok. Eu só tenho aqui cinquenta reais e posso te passar esse dinheiro, que vai te ajudar de alguma forma. Assim, a gente resolve tudo de um jeito mais rápido e melhor pra nós, certo?

O guarda nem se mostrou surpreso, mas questionou a postura do pai do motorista, que estava de cara feia. Confidenciou baixinho ao infrator:

-Mas e esse senhor aí, qual é a dele? Com ele não tem jogo não... Vamos fazer isso entre nós e deixar ele fora dessa.

-Ok, ok. Ele nem precisa ficar sabendo. E como é que a gente faz?

-Eu vou ali pra trás do carro, tipo pra anotar a placa e lavrar a multa. Você entra no carro e coloca o dinheiro junto com sua habilitação e depois me passa a habilitação, mas longe desse velho aí. Não quero nada com ele e ele nem pode saber. 

E a operação foi um sucesso absoluto. Pai e filho seguiram seu caminho e o policial continuou por ali, dando expediente. Dentro do carro, no entanto, um leve constrangimento ainda perdurava. O motorista e o passageiro tiveram uma franca conversa, sem rodeios e fingimentos e acabaram concordando no final. Dizia o pai:

-Acho um absurdo um negócio desses. Eu conheço alguns chefes do departamento de trânsito e vou conversar com eles.

-Pra quê, pai?

-Ora, vou denunciar esse guarda. Agimos errados e estávamos errados porque o carro estava irregular, mas não me conformo com o comportamento dele.

-Ah, não vai não, pai. Não faça isso, que é besteira. 

-Como não? Besteira por quê?

-O senhor o denuncia e o prejudica. Ele, de repente, perde o emprego ou sei lá o quê. Depois fica sabendo que dançou por sua causa. O senhor não pensa que ele pode vir te procurar depois pra se vingar? Pense bem, pai. A gente nunca sabe do que esse povo é capaz. Foi só um subornozinho, sem maldade, sem grandes prejuízos. Deixa o guardinha pra lá e nós pra cá.

O pai reconheceu a sabedoria do filho. Tudo bem, que não seja isso uma sabedoria, já que não se trata de um exemplo magnífico. Digamos que o pai tenha reconhecido, então, a capacidade de improviso do filho e sua visão prática diante de uma situação adversa. E disse ao filho:

-Acho que é isso mesmo. Melhor é esquecer disso.

E o filho, pegando corda com a aquiescência do pai, bateu duro:

-Se o senhor quiser fazer alguma coisa pra se vingar desse guardinha, o melhor a fazer é mandar matar ele logo, porque aí ele não vai ter como se vingar. Ele morre e ponto final.

O pai respondeu com a mais monossilábica de todas as palavras, um simples "é". Eles seguiram seu caminho e chegaram sem atraso no batizado do mais novo parente de ambos. Se rezaram durante a missa e pediram a Deus pelo guardinha de trânsito e sua família, não se sabe.

sor

Do livro acima, edição do autor, exemplar raro nas estantes do tyrannus, reproduzimos o txt desta edição

é eu

loro

é eu

 

 

 


Voltar  
2 Comentário(s).
Obrigado Guapo... Fico até "toceira" com seu comentário
enviada por: lorenzo    Data: 26/07/2018 20:08:51
Gostei! meu amigo Lorenzo, você consegue colocar bem a idiossincrasia do povo brasileiro. Ao mesmo tempo que condena reza pelo malfeitor. Abraços.
enviada por: Milton Guapo    Data: 26/07/2018 15:03:15

Confira também nesta seção:
13.08.18 18h00 » Meus livros
10.08.18 18h00 » Apologia de Sócrates (trecho)
08.08.18 18h00 » O escritor trabalhando
06.08.18 18h00 » Gente pobre (trecho)
04.08.18 18h00 » Capítulo primeiro
02.08.18 18h40 » O Agiota
31.07.18 18h00 » Nada, mãezinha*
29.07.18 18h00 » As irmãs
27.07.18 18h00 » Gringuinho
25.07.18 18h00 » Um subornozinho
23.07.18 18h00 » Sexo nos berçários
21.07.18 18h13 » O dia em que o fotógrafo não quis fotografar
19.07.18 18h00 » O Lobo*
17.07.18 18h00 » Pedra Canga
15.07.18 18h10 » Selva Trágica
13.07.18 17h51 » A origem do mundo
11.07.18 18h00 » Anteontem, de manhã.
09.07.18 18h00 » O salário dos poetas
07.07.18 18h00 » Manhã Perdida
05.07.18 18h00 » O peixe de ouro

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet