ROMANCE

Gente pobre (trecho)



Várienka, meu amorzinho, minha pombinha, minha joia preeciosa:

Levam-na daqui, parte! Sim, seria preferível que me arrancassem o coração do peito do que arrancá-la de mim! Como é possível que isto aconteça? Como pôde consenti-lo? Acabo de receber agora mesmo sua carta, que em muitos lugares está salpicada de lágrimas. Isto quer dizer que não deseja partir, que a levam à força, que tem compaixão de mim, que me ama. E agora, como pode ser? O que vai acontecer? Seu coraçãozinho náo resistirá àquilo! Lá tudo é feio, triste, frio. A saudade vai deixá-la doente, a tristeza vai matá-la. Lá morrerá, lá a enterrarão na terra úmida e não haverá ninguém para chorar por você. O senhor Bíkovestará sempre na caça às lebres. Ah, minha filha, minha filha, que decisão tomou? Como pode concordar com uma coisa dessas? O que fez consigo mesma? Lá a levarão à morte, simplesmente darão cabo de você, meu anjinho! É uma menina frágil como uma pena!Mas onde estava eu com a cabeça? Eu, desmiolado, dormia de olhos abertos, nem imaginava o que passava na cabecinha da menina, não sabia que a menina estava sem juízo! Eu deveria ter, simplesmente... mas não, fui um verdadeiro idiota, não pensava nem via nada, como se estivesse muito seguro, como se não tivesse nada a ver com isso... e ainda por cima correndo atrás de falbalá. Não, Várienka, melhorarei, amanhã saio da cama. Eu, filhinha, vou me jogar debaicho daas rodas de seu coche, não a deixarei partir! Não, mas o que está realmente acontecendo? Com que direito acontece tudo isso? Partirei com você, e se não quiser que a acompanhe, correrei, correrei até que não possa mais, até que me falte o fôlego, até que dê o último suspiro! E você sabe, por acaso, , o que há no lugar para onde vai? Pois se não sabe, pergunte-me. Lá, é só a estepe, meu anjinho, a estepe plana, pelada e infinita, tão nua como a palma de minha mão! Ali só verá camponesas grossas, insensíveis, mujiques rústicos e bêbados. Agora, por este tempo, não encontrará árvore com folhas, chove, faz frio. É para lá que a levam! Para o senhor Bíkov aquilo é uma maravilha, vai se entreter com lebres - e você? O que você vai fazer ali? Quer ser uma proprietária rural, minha filha? Olhe para você, não tem nada a ver com uma proprietária rural. Como é possível, Várienka? Para quem vou escrever cartas? Reflita e pergunte a si mesma somente uma coisa: agora, para quem o pobre vai escrever cartas? E a quem vou poder chamar de minha filha; onde poderei encontrá-la, meu anjo? Morrerei, Várienka, certamente morrerei, pois o meu coração não suportará essa desgraça! Eu a amava como à luz do sol, como uma verdadeira filha, amava tudo em você, minha pombinha! Vivia apenas para você! Trabalhava, copiava, andava, passeava, deixava minhas impressões no papel em forma de cartas, apenas para você, criança, que vivia aqui, tão perto. Talvez nem compreendesse, mas era assim, era realmente como digo agora. Ouça, minha filha, pense bem, reconsidere, minha pombinha, como é que nos abandona? Não, filha, não deve ir, nem deve pensar nisso! Chove, você está tão delicada, resfria-se facilmente. O coche em que viajará vai ficar encharcado, com certeza vai ficar encharcado; e mal sairá da cidade uma roda do coche se quebrará, se fará em pedaços. Aqui em Petersburgo, os coches que constroem são muito ruins! Conheço todos os marceneiros fabricantes de coches, e sei que para eles o que interessa é a aparência, a beleza, mas de durabilidade nem falemos; portanto, meu anjo, acredite-me: esses cochezinhos não valem nada. Eu, minha filha, posso cair de joelhos diante do senhor Bíkov, provo-lhe, convenço-o; e você, filhinha, tratará de convencê-lo, também. Diga-lhe, simplesmente, que fica, que não pode acompanhá-lo. Ah, por que não se casou com a filha daquele comerciante de Moscou? Teria sido melhor para todos se tivesse casado com uma comerciante! Seria mais conveniente para ele. Então você continuaria aqui, ao meu lado, Várienka. Para que precisa desse Bíkov? Será que assim, tão de repente, apaixonou-se por ele? Será porque lhe comprou op falbalá, será? Mas afinal, o que é esse falbalá? A falbalá, minha filha, não vale nada, não passa de um pedaço de pano. Aqui se trata da vida de um homem, minha filha, e não do falbalá, o falbalá não passa de um trapo, trapo sem importância alguma, nada mais. Eu mesmo, assim que receber o ordenado, compro-lhe um monte de falbalá, pois já conheço uma loja onde  vendem, é só ter paciênciaaté eu receber o ordenado, minha Várienka. Ah, meu Deus, meu Deus! Então vai mesmo para a estepe com o senhor Bíkov, vai-se para sempre! Ah minha filha!... Não, escreva-me, ainda que seja só uma vez, e ao chegar lá, escreva-me depressa outra. Esta não pode ser a última carta, assim de repente? Não, não, vou escrever-lhe sempre, e você escreva-me também... mesmo porque agora já tenho um estilo. Ah, filha, mas porque falo de estilo? Agora, por exemplo, nem sei o que escrevo, não sei, sequer releio, não corrijo, escrevo unicamente por escrever, só para lhe escrever mais... Minha pombinha, minha criança, minha filhinha!

gente

Vem da obra acima (Editora LetraSelvagem), que integra a biblioteca tyrannus, a prosa desta edição. Tradução de Luís Avelima

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Fiódor Dostoiévski (1821-1881) foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado um dos maiores romancistas e pensadores da história universal

 


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