ROMANCE

Noturno do Chile (trecho)



Os dias que se seguiram foram estranhos, era como se todos nós houvéssemos acordado de repente de um sonho para a vida real, embora por vezes a sensação fosse diametralmente oposta, como se de repente todos estivéssemos  sonhando. Nosso dia-a-dia desenrolava de acordo com esses parâmetros anormais: nos sonhos tudo pode acontecer, e você aceita que tudo aconteça. Os movimentos são diferentes. Nós nos movemos como gazelas ou como o tigre sonha com as gazelas. Nós nos movemos como uma pintura de Vassarely. Nós nos movemos como se não tivéssemos sombra e como se esse fato atroz não nos importasse. Falamos. Comemos. Mas na realidade estamos tentando não pensar que flamos , não pensar que comemos. Uma noite fiquei sabendo que Neruda tinha morrido. . Telefonei para Farewell. Pablo morreu, disse. De câncer, de câncer, disse Farewell. Sim, de câncer, disse eu. Vamos ao enterro? Eu vou, disse Farewell. Vou com o senhor, disse eu. Quando desliguei o telefone, pareceu-me uma conversa sonhada. No dia seguinte fomos ao cemitério. Farewell estava muito elegante. Parecia um navio-fantasma, mas estava muito elegante. Vão devolver minha fazenda, disse-me ao pé do ouvido. O cortejo fúnebre era numeroso, e, à medida que caminhávamos, foi se juntando mais gente. Que rapaziada bem-comportada, disse Farewell. Controle-se, disse eu. Olhei para o rosto dele: Farewell ia piscando o olho para uns desconhecidos. Eram jovens e pareciam mal-humorados, mas me pareceram surgidos de um sonho em que o mau humor e o bom humor eram apenas acidentes metafísicos. Ouvi alguém, atrás de nós, reconhecer Farewell e dizer é Farewell, o crítico. Palavras que saíam de um sonho e entravam em outro sonho. . Depois alguém se pôs a gritar. Um histérico. Outros histéricos fizeram coro ao estribilho. Que ordinarices são essas?, perguntou Farewell. Uns mal-educados, respondi, não se preocupe, estamos chegando ao cemitério. E onde vai Pablo?, perguntou Farewell. Ali adiante, no caixão, disse eu. Não seja idiota, disse Farewell, ainda não sou um velho gagá. Desculpe, disse eu. Está desculpado, disse Farewell. Pena que os enterror não sejam mais como antes, disse Farewell. É verdade, disse eu. Com panegíricos e despedidas de todo tipo, disse Farewell. À francesa, disse eu. Eu teria escrito um discurso precioso a Pablo, disse Farewell, e se pôs a chorar. 

chile

Da obra acima (Companhia das Letras), que acaba de se integrar ao meu acervo, vem o naco de prosa da edição de hoje. A tradução é de Eduardo Brandão

bolano

Roberto Bolaño Ávalos (1953-2003), escritor chileno considerado por seus pares o mais importante autor latino-americano de sua geração

 

 

 

 

 


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