ROMANCE

Lolita (trecho)



Quando olhei ao meu redor pela última vez, uma súbita rajada de vento despenteava as copas dos olmos e dos choupos, sobre a branca torre da igreja Ramsdale pairava uma nuvem prenhe de chuva. Rumo a aventuras desconhecidas, eu estava deixando a lívida casa onde alugara um quarto havia apenas dez semanas. As cortinas de bambu - práticas e baratas - já tinham sido baixadas. Como dizia o anúncio, na varanda ou dentro da casa, sua rica textura representa um toque moderno de elegância. Sem elas, a mansão celestial deve parecer bastante nua. Um pingo de chuva caiu sobre meus dedos. Enquanto John punha as malas no carro, por alguma razão entrei de novo na casa, e então aconteceu uma coisa engraçada. Não sei se nestas trágicas memórias acentuei suficientemente o efeito peculiar que a bela aparência do autor - pseudocéltica, atraentemente simiesca, juvenilmente máscula - exercia sobre as mulheres de qualquer idade ou meio social. Evidentemente, declarações desse tipo feitas na primeira pessoa podem soar ridículas. Mas, vez por outra, sou obrigado a recordar ao leitor minha aparência assim como um escritor de segunda categoria, que deu a uma personagem determinado maneirismo ou um cachorro, continua a evocar esse cachorro ou aquele maneirismo sempre que a personagem reaparecer ao longo do livro. Talvez, neste caso, haja razões mais relevantes. Toda esta hiostória só pode ser  compreendida se meus traços sombrios e atraentes forem levados em conta. O que a púbere Lô sentiu diante dos encantos de Humbert só era comparável ao que sentia ao ouvir aquelas músicas sincopadas; a adulta Lotte amou-me com uma paixão madura e possessiva, que hoje eu deploro e respeito mais do que ouso admitir. Jean Farlow, que tinha trinta e um anos e era absolutamente neurótica, aparentemente também havia caído por mim. Ela era bonita, como pode ser bonito um índio esculpido em madeira, com sua tez de terra de Siena queimada. Seus lábios eram como enormes pólipos encarnados e, quando soltava sua risada especial (que lembrava um latido), punha à mostra os dentões opacos e as pálidas gengivas.

lolita

Do livro acima (Lolita), publicado pela Mifano Comunicações, que consta na biblioteca do lar tyrannus, foi reproduzida a prosa nesta edição. A tradução é de Jorio Dauster

nabokov

Vladimir Nabokov (1899-1977) foi romancista, poeta, tradutor e entomologista russo-americano

 


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