ROMANCE

Confissões de uma máscara (trecho)



Todo mundo diz que a vida é um palco. Mas a maioria das pessoas não parece ficar obcecada com a ideia, menos ainda tão cedo quanto eu. Pelo final da infância, eu já estava firmemente convencido de que a coisa era assim e de que devia representar minha parte no palco se nem uma vez revelar meu verdadeiro eu. Como minha convicção era acompanhada de uma falta de experiência extremamente ingênua, embora houvesse uma persistente suspeita em algum lugar de minha mente de que eu podia estar enganado, ainda estava praticamente certo de que todos os homens embarcavam na vida exatamente desse modo. Acreditava com otimismo que, assim que o desempenho terminasse, a cortina cairia e a plateia nunca veria o ator sem maquilagem. Minha posição de que morreria jovem também era um fator nessa crença. Com o decorrer do tempo, porém, esse otimismo ou, para dizer melhor, esse devaneio deveria sofrer uma cruel desilusão. 

Por precaução, eu deveria acrescentar que não estou me referindo aqui à questão habitual de "autoconsciência". Em vez disso é simplesmente uma questão de sexo, do papel por meio do qual a gente se esforça por ocultar, frequentemente até de nós mesmos, a verdadeira natureza de nossos desejos sexuais. No momento não pretendo me referir a nada além disso.

É bem possível que o chamado aluno atrasado seja produto de hereditariedade. Apesar disso, eu quis receber promoções regulares junto com o resto da minha geração na escola da vida, e encontrei por acaso um modo paliativo de fazer isso. O ardil consistia, em resumo, em copiar as respostas de meus amigos durante os exames, sem compreender absolutamente nada do que estava escrevendo e segurando minha folha com inocência estudada. Há momentos em que um método como esse, mais estúpido e descarado do que astuto, colhe um sucesso aparente, e o aluno é aprovado. No grau para o qual é promovido, porém, presume-se que ele domine as matérias dos anos anteriores, e à medida que aumenta a dificuldade das aulas, vai ficando completamente perdido. Embora ouça o que diz o professor, não compreende uma palavra. Nesse ponto há apenas duas saídas para ele: ou bem se arruína de vez, ou bem finge o tempo todo que realmente compreende. A escolha entre essas duas saídas será determinada pela natureza, não pela quantidade, de sua fraqueza e descaramento. Ambas exigem a mesma dose de descaramento, ou de fraqueza, e também uma espécie de anseio lírico e imperecível pela preguiça.

mascara

Da obra acima (Círculo do Livro), presente na biblioteca tyrannus, com tradução de Manoel Paulo Ferreira, vem a prosa desta edição

mish

Yukio Mishima (1925-1970), ficcionista e dramaturgo japonês mundialmente conhecido

 

 


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