ROMANCE

A Maldição de Ondina (trecho)



Donde surgiu o martelo que lhe esmigalha o cotovelo? O ladrão sucumbiu como um morcego atingido por pedrada. Os olhos raiados de medo, a bopca sugando o ar em volta.

A turba abate-se sobre ele. Um miúdo prega os dentes na perna do ladrão até golfar sangue. Outro pontapeia-lhe a cabeça. O terceiro esmurra-lhe o abdômen. Ninguém, da dúzia de homens e garotos que rodeia o corpo deixou o seu crédito por mãos alheias. Em torno repetem-se as incitações, matizadas pelo receio de que tudo acabe depressa demais. Querem prolongar a tortura; o ódio carambola, empesteia o ar. 

Abrem-se alas para deixar passar os dois homens que transportam um pneu. Atrás deles, um mais velho, magro como um arame, enrola um pano na ponta de um pilão, um pano encharcado em gasolina.

Pouco esperneia o ladrão, rendido. O corpo espaçado deixa-se anelar pelo pneu, enfiado pela cabeça. Tenta balbuciar, o que lhe dá direito a duas galhetas suplementares. Corvos negros pairam no ar, pressentindo a carniça.

Raul visou uma das aves. O impacto de seu tiro dispersou os justiceiros. Só o miúdo da dentada, a boca tinta de sangue, lhe enfrenta o olhar. Raul nem hesita, num segundo disparo despedaça a lata de cerveja que roçava os pés do miúdo; aí, deu corda aos sapatos.

Raul chama uma ambulância. Olha em torno, faz-se uma clareira à entrada do mercado do Xipamanine. A mão contraída, tensa, sobre a coronha. 

Raul vê a ambulância partir, funga, e encaminha-se para a tasca de onde saiu há quinze minutos para resolver o linchamento. 

O seu amigo - abriu o botão da gravata por causa do calor do caldo - sorve uma colher. Absolutamente absorvido. Do balcão perguntam: 

- Deputado, outra cervejinha?

- Traz lá a beer... - responde o deputado, limpando o suor na testa com um lenço. Mete outra colher na boca. 

Raul larga a pergunta como se fosse uma bofetada:

- Está bom o mutchuchu*?

 

*Cozido feito com as bochechas e a moleira da vaca

ondina

Da obra acima (LetraSelvagem), presenteada ao tyrannus pela editora, vem a prosa da hora

cabrita

António Cabrita nasceu em Almada (Portugal) em 1959. Tem uma atuação incrivelmente diversa (autor e não autor) na literatura e em áreas como cinema, teatro, ensaio, jornalismo e educação

 

 

 

 

 


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