FICÇÃO/PESQUISA

Dias de Faulkner (trecho)



Faulkner chegou ao saguão do Esplanada, cumprimentou o intérprete, Saldanha Coelho, que aproveitou para ter seu volume de "Enquanto agonizo" autografado. O escritor norte-americano se dirigiu logo em direção à cadeira, disposta especialmente para ele, sem esconder que não gostava de encontros literários, de ter de falar de literatura, formalmente, nem de ser obrigado a uma convivência forçada em grupos como se formam nessas reuniões literárias. Odeio, escrevam isso, odeio a ideia de ser sabatinado e ter que responder a centenas de questões higienizadas, sobre estilo, técnica, etc. O olhar grava, quase de reprovação, do adido cultural norte-americano concentrava a atenção do escritor.

Depois dessa introdução severa, Faulkner se revelou  o oposto do que prometia, começou a conversar desembaraçadamente, sem parecer arredio como se pensava dele. Apesar do constrangimento inicial, e que era perceptível no olhar miúdo e respostas lacônicas, disse que estava satisfeito em conversar com jovens escritores e que - para surpresa de todos - responderia de muito bom grado a todas as perguntas que pusessem. Mesmo sobre literatura.

-Eu acho que os novos têm sempre força para realizar que sua época exige deles, e os velhos, ainda que queiram fazer alguma coisa, não podem, ou nem sempre sabem fazer. 

-Qual a relação entre escritores mais velhos e os mais novos?

-Os artistas, acendeu então o cigarro, e ao rapaz do hotel que trouxera um cinzeiro disse "obrigado" em alto e bom som, retomando a frase depois. Os artistas estão ligados por uma espécie de corrente no tempo e no espaço, uma geração mal está envelhecendo e já surge outra que continua a obra da anterior, no que ela aperfeiçoa e realiza aquilo que a geração precedente não pode fazer ou fez mal feito, às vezes... Acontece. Uma breve risada rapidamente contida cortou o saguão. Faulkner continuou: Uma geração poder ver os problemas que outra não percebe, o tempo se apresenta de modo diferente. 

-E que problemas são esses hoje?

-Ora, os problemas do homem de cor. Eles precisam ser sanados. Nos últimos cinquenta anos, eles, os homens de cor, progrediram mais nos Estados Unidos do que a raça branca. Se lhes fosse permitido resolver seus problemas, e vocês podem ver em minha obra, são uma das minhas maiores preocupações.

-O que o senhor tem a dizer em especial sobre esta questão racial tão delicada?

-Que a discriminação racial não deve existir, os problemas do homem de cor precisam ser resolvidos, porque não se compreende que ainda existam diferenças entre brancos e pretos, em nossa época tão adiantada.

FAULKNER

Da obra acima, premiada e publicada por iniciativa da Imprensa Oficial de SP, foi reproduzida a prosa desta edição. "Dias de Faulkner" compõe nossa biblioteca e foi presenteada ao tyrannus por Matinas Suzuki Jr.

dutra

Antônio Dutra é carioca, históriador e escritor, que goza de prestígio no meio literário nacional

 


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