CONTO

Prece sem nome nem título



Há muito ouço no vento os ecos longínquos de Teu indefinível nome. Procurei, talvez em vão, nas formas separadas o que está absoluto e uno em todas as coisas. Senti, em plena música, o teu imenso vazio. Enquanto todos dormiam – filhos, esposa e rebanho – saí pela noite densa esperançoso. A minha amada crê severamente que enlouqueci, tal qual meus conterrâneos. Meus filhos não: feito lírios brincantes no teu vento, não são nocivos.

Quando não me perco no horizonte infindo, passo dias a observar os grãos de areia deste deserto em que existo. O deserto, o horizonte e a pequenez das areias habitam dentro de mim assim como eu habito neles.

Colho, com o dia ainda em orvalho, pedras frágeis e inquebrantáveis flores –– para lembrar do meu nada e da minha fortaleza. Desde quando descobri que tudo por quanto nomeiam amor é infinito, não cometo o pecado da impaciência. Eu sou a espera, o olhar atento, a profunda calmaria. 

Já não sou estranho ao meu destino, não obstante sequer chamarem-me pelo meu verdadeiro nome. O meu fardo único é imaginar que nunca serei exemplo para ninguém, tamanha a insensatez da minha tribo; exceto para meus filhos, que sei bem, desde o olhar primeiro, cresço junto aos seus ossos.

Todos da minha vila têm alguma opinião a dar sobre mim. “O perdido, o louco, o abismado, o ensimesmado, o translúcido, transverso”. Mal sabem eles que o que imaginam é nada além da pura verdade. E esta é sucinta, não vive longe sequer por um segundo, nem mesmo dos tolos. 

Sou apenas um nesta cidadela, e em todos os momentos nada além de solitário. Erro pelo tempo oco a cantar junto a árvores e animais silvestres. Os que não riem de mim choram por mim. Somente meus animais, minhas crianças e minha terra pairam comigo para sentir enfim o ardor e a acolhida de teu profundo silêncio.

arma

Do livro acima (Chiado Editora), presenteado ao tyrannus pelo autor, vem o conto desta edição

rodi

Rodivaldo Ribeiro é jornalista com pegada literária faz horas. O site passarinho saúda a chegada de seu primeiro livro solo

 


Voltar  

Confira também nesta seção:
14.06.19 21h30 » Mosaico Cuiabano*
12.06.19 20h00 » Um enforcamento*
10.06.19 12h00 » Máquinas como eu*
07.06.19 22h00 » Vamos acabar com esta folga*
05.06.19 21h30 » Abril é o mês mais cruel*
03.06.19 12h00 » A Nova Califórnia
31.05.19 21h00 » Citações
29.05.19 20h00 » Morte natural*
27.05.19 12h00 » O Encontro*
24.05.19 22h00 » Macunaíma
22.05.19 21h00 » O dilema de Bárbara*
20.05.19 12h00 » Festa e paúra*
17.05.19 21h00 » Espelho*
15.05.19 18h00 » Pedra, papel e tesoura*
13.05.19 10h00 » O Velho e o Mar*
10.05.19 20h30 » Criança `perdido´
08.05.19 19h00 » Motivo*
06.05.19 11h00 » Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral*
03.05.19 21h00 » O sacristão*
01.05.19 16h00 » Milho Cozido*

Agenda Cultural

Veja Mais

Últimas Notícias

Mais Notícias

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet