ROMANCE (trecho)

Quando ela era boa*



Certa tarde de novembro de 1954, uma semana antes do Dia de Ação de Graças, na hora do lusco-fusco, Willard Carroll foi de carro até Clark’s Hill, estacionou junto à cerca e subiu a pé o caminho que levava às sepulturas da família. Como o vento estava ficando mais frio e mais forte a cada minuto, quando ele atingiu o topo da colina, as árvores nuas, cujos galhos apenas estalavam no momento em que ele saiu do carro, agora emitiam um gemido surdo. O céu de nuvens agitadas tinha uma coloração estranha, embora mais abaixo já parecesse ser noite. Da cidade, ele conseguia discernir pouco mais que a linha negra do rio e os faróis dos carros que passavam pela Water Street em direção à Winnisaw Bridge.

Como se, de todos os lugares possíveis, aquele tivesse sido seu destino, Willard se deixou cair sobre o banco frio que ficava defronte às duas lápides, levantou a gola do casaco vermelho de caça, puxou para baixo as abas de orelha do gorro, e ali, diante das sepulturas da irmã Ginny e da neta Lucy, e dos retângulos reservados aos demais familiares, esperou. Começou a nevar.

Esperava o quê? A cretinice desse seu comportamento logo ficou evidente. O ônibus que o levara a sair de casa estaria estacionando nos fundos da loja do Van Harn dentro de alguns minutos; dele desceria Whitey, com a mala na mão, estivesse seu sogro sentado ali num cemitério gélido ou não. Tudo estava pronto para sua chegada, que o próprio Willard contribuíra para que ocorresse. Então, o que fazer agora? Dar para trás? Mudar de ideia? Deixar que Whitey encontrasse outro protetor — ou trouxa? Está certo, ah, é exatamente isso — deixe escurecer, deixe esfriar, simplesmente continue sentado enquanto cai a neve… E o ônibus vai chegar, o sujeito vai descer e entrar na sala de espera, felicíssimo por ter de novo tapeado alguém — e descobrir que, dessa vez, nenhum babaca chamado Willard o aguarda na sala de espera.

Mas em casa Berta preparava o jantar para quatro pessoas; ao passar pela cozinha para ir à garagem, Willard havia lhe dado um beijo no rosto — “Vai dar tudo certo, sra. Carroll” —, mas podia estar falando consigo próprio, a julgar pela reação que suscitou. Na realidade, era mesmo consigo que falava. Saiu da entrada da garagem de marcha a ré e olhou para o segundo andar, onde sua filha Myra corria pelo quarto para tomar banho e se vestir antes que o pai e o marido entrassem em casa. Mas o mais triste, e mais perturbador, era que havia uma luz fraca no quarto de Lucy. Na semana anterior, Myra havia mudado a cama de um lado para o outro do quarto, removera as cortinas que haviam continuado penduradas durante todos aqueles anos, e comprara uma colcha nova, de modo que pelo menos não se parecesse mais com o quarto em que Lucy havia dormido, ou tentado dormir, na última noite que passou na casa. Obviamente, a respeito da questão de como e onde Whitey iria dormir, o que Willard podia fazer senão se manter em silêncio? Secretamente, era um alívio saber que Whitey ficaria “em observação” — mas seria melhor que ocupasse outra cama que não aquela.

Em Winnisaw, o velho amigo de Willard e colega de maçonaria Bud Doremus esperava que Whitey aparecesse para trabalhar em sua loja de ferragens na primeira hora da segunda-feira. Os acertos com Bud datavam do verão, quando Willard aceitara receber de novo o genro em sua casa, mesmo que só por pouco tempo. “Só por pouco tempo”, garantiu a Berta; porque ela estava certa, isso simplesmente não podia ser uma repetição de 1934, quando alguém necessitado tinha vindo para uma breve estada e de algum modo conseguira estendê-la por dezesseis anos, mamando nas tetas de outra pessoa que nem tinha tanto leite para dar. Mas é claro, disse Willard, aquela outra pessoa era por acaso o pai da mulher do sujeito…   E isso significa, perguntou Berta, que dessa vez vão ser mais dezesseis anos? Porque você sem dúvida continua a ser o pai da mulher dele; isso não mudou em nada. Berta, para início de conversa, não imagino que eu tenha mais dezesseis anos pela frente. Bem, ela disse, nem eu, o que pode ser outra razão para nem começar. Está falando em deixar os dois saírem por aí sozinhos? Antes mesmo de saber se o sujeito mudou mesmo?, perguntou Willard. E se ele tiver de fato se regenerado, de uma vez por todas? Ah, sei, disse Berta. Bom, você pode ironizar, mas não é assim que eu encaro as coisas. Quer dizer, por acaso Myra também encara de outro modo, Berta disse. Estou aberto a opiniões de todos os lados, ele disse, não vou negar. E por que iria negar? Então muito bem, talvez você devesse estar aberto à minha, disse Berta, antes de começarmos essa tragédia mais uma vez. Berta, ele disse, até primeiro de janeiro vou oferecer ao sujeito um teto para ele poder acertar seus ponteiros. Primeiro de janeiro, ela disse, mas de que ano? Do ano dois mil?

 

*Reproduzido de livro publicado pela Companhia das Letras, com tradução de Jorio Dauster

roth

Philip Roth (1933-2018) foi um romancista norte-americano, considerado um dos maiores autores de seu país, da segunda metade do século XX. Deixou romances, mas também escreveu contos e ensaios




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