ROMANCE (trecho)

Noite dentro da noite*



Nas semanas que antecederam O Ano do Grande Branco, certos acontecimentos deixaram a família de sobreaviso. O encontro com a aranha foi o primeiro deles. Não fazia muito tempo que tinham se mudado de Cuiabá para Medianeira, no Paraná. Vinham de longe, do ar puro do inferno, pulando de buraco em buraco até chegarem ali. A família não permanecia mais do que dois anos na mesma cidade. Em Medianeira, a casa em que moravam era de madeira, ficava no alto da colina recoberta pela vegetação ressequida. Fazia muito frio, e era um lugar propício à ocorrência de fatos estranhos, pois ali havia um porão. Na varanda dos fundos da casa também tinha um poço que vivia tampado, e coisas terríveis costumam acontecer em casas que têm poços nos fundos. Ainda não conheciam ninguém no lugar, o início das aulas estava longe. Havia um campinho de várzea num terreno baldio não muito distante, e logo nos primeiros dias após a chegada os moleques vieram chamar vocês para jogar bola. Animado com a recepção, você correu a tirar seu par de Kichutes de uma caixa de papelão que não tinha sido aberta e que permanecia escondida no fundo do guarda‑roupa.

A terra tinha cor vermelha e metade da população era de açougueiros. Mulheres e filhos de açougueiros compunham a outra metade. Instalaram um grande matadouro por lá nos anos 1960, além do frigorífico na periferia da cidade onde quase todos trabalhavam. Dos morros, a geada era arrastada pelas enxurradas. A vermelhidão da terra se devia ao sangue do matadouro, era o que vocês se perguntavam, todo lugar habitado por açougueiros tem a terra vermelha. Ali a brancura da neve não durava por causa da lama, devido ao sangue. Medianeira era um açougue a céu aberto, a vermelhidão da terra sujava o branco da primeira geada e suas galochas a caminho da escola, pisoteando lama. Em alguns dias era tão espessa que um dos pés ficava retido no chão e vocês chegavam só com o outro pé embarreado na escola. Levavam um par de chinelos na mochila, para que a lama vermelha não se espalhasse pelo piso da classe. Botas ficavam do lado de fora, às vezes pares incompletos, como naquele primeiro dia de aula em que perderam as galochas cobertas de sangue, lama e gelo. Diante das casas havia limpa‑pés de ferro para que a sujeira das ruas não enlameasse o piso incólume do interior. Ao voltarem da escola, sempre havia uma folha de castanheira fossilizada nos blocos de barro grudados nas solas de suas botas de borracha.

Quando o sinal tocou, dando início à aula, deu para ver que o pai de um colega de classe tinha só a metade inferior da mão direita, as pontas dos dedos haviam sido amputadas em seu trabalho no matadouro. Ele se despediu do filho e vocês viram seu aceno dividido ao meio que mais parecia um aviso de alerta incompleto ou um pedido de socorro interrompido. Aquele açougueiro nunca iria se despedir inteiramente.

Não é isenta, a brancura, existe nela um elemento  perturbador. É impossível lembrar ou mesmo dormir com sua vibração intensa — dizem que cegos veem branco em vez de negro, e que por isso têm insônia. Você vê tentáculos que desejam alcançá-lo, são os braços da família. Então é repelido pela brancura de volta ao fundo do poço cujo diâmetro rapidamente aumenta enquanto você cai.

Morta, a aranha-caranguejeira também era negra. Ficou presa pelo ferrão ao seu dedão do pé, que a esmagou no esconderijo dela no interior do tênis. De onde a aranha saiu, teria acompanhado a família em suas mudanças dos últimos anos. A caixa onde estava o Kichute permanecia fechada. A aranha  pegou carona dentro da chuteira até o Paraná, pretendia acompanhar a família pelo resto da vida. Ninguém jogou bola aquele dia. Conheceram o hospital da cidade, onde você tomou soro na veia a tarde inteira. O veneno da caranguejeira se misturou ao seu sangue. A ponta do dedão ficou preta, parecia que ia cair. Não caiu, mas a unha, sim. A aranha não imaginou que seria encontrada.

A velocidade da queda aumenta. Você considera que tudo ficará bem quando atingir a água escura do fundo do poço, uma mistura de lama e sangue. Será como voltar para casa depois de tanto tempo, regressar ao covil da família. Abaixo, o círculo se aproxima com rapidez, e você começa a divisar do que ele é feito. Soltando‑se da lama sanguinolenta, as oito pernas cabeludas da aranha-caranguejeira se destacam do fundo viscoso do poço escuro.

*Reproduzido de https://www.companhiadasletras.com.br

joca

Joca Reiners Terron é cuiabano. Vive em São Paulo desde 1995. Escreve em prosa e verso e para teatro. Nome bastante prestigiado nas letras brasileiras contemporâneas




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