CONTO

O anel*



Não conseguia expor bem o tema, que pedia detalhes seguidos, porque ela, sentada lá no meio do público, fazia-lhe sinais continuados. Irritava-se e os membros da mesa pediam silêncio e atenção.

Palestra terminada, quis saber quem era aquela moça jovem, bonita, que o atrapalhava. Ela, porém, se antecipou. Subiu os poucos degraus, postou-se diante da mesa:

- Preciso falar com o senhor.

Todos curiosos. E ele se mostrou aborrecido:

- Quem é você?

- O senhor não sabe quem sou eu. Mas eu sei quem é de fato o senhor.

Encarou-a, levantou-se:

- Fale baixo. O que você quer?

- Quero lhe dizer só duas palavras e lhe dar um presente.

- Presente? Depois.

- Agora. É rapidinho. Pode ser ali no canto.

O silêncio e a curiosidade aumentavam entre os assistentes próximos. O público procurava se aproximar para cumprimentá-lo.

Ele resolveu-se, contrariado:

- Com este povo todo... Está bem. Um minuto só.

Dirigiram-se para perto do cortinato, atrás da mesa. Suspirou:

- E então, moça, o que deseja?

- O senhor conheceu, anos atrás, uma moça e lhe deu de presente um anel, lembra-se?

- Faz tempo.

- O senhor a engravidou e desapareceu, não foi?

- Como é?

Ela mostrou-lhe o anel:

- Antes de morrer ela me deu o anel de presente. Até mandou lhe avisar que estava muito doente e o senhor nem sinal. Pois está aqui o anel. Está reconhecendo? Vim devolvê-lo. Sou filha dela. Filha daquela gravidez.

Ele gaguejava:

- Quer dizer... quer dizer...

- O senhor sabe o que quer dizer.

Jogou no bolso dele o anel:

- Dê de presente a outra moça. O senhor ainda tem idade para recebê-lo de volta anos depois. Parabéns pela palestra. O senhor é muito famoso.

Ele tentou segurá-la:

- Volte aqui.

Ela se foi apressada e perdeu-se no meio do povo que ainda procurava cortejá-lo.

Ele voltou à mesa e sentou-se calado. Uma voz sussurrou-lhe:

- O que ela lhe disse? Está sentindo alguma coisa?

Ele suspirou, dedos tamborilando de leve na mesa. A outra mão, fria, acariciava o anel no bolso. A voz insistiu:

Está indisposto?

- Não, não. Quero só um copo d´água.

 

 

*Reproduzido de http://caioporfiriocarneiro.blogspot.com/

porf

Caio Porfírio Carneiro (1928-2017), nasceu no Ceará e morreu em São Paulo. Foi romancista, poeta, cronista, mas, principalmente contista, gênero que lhe deu o Prêmio Jabuti em 1975

 


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