CONTO

Gente de quem?*



As afirmações do homem
são o espaço que ele arranca
da negação (Aclyse Mattos)

 

Comecei a namorar o Toninho muito jovem. Ele já estava formado, tinha grana, era de família tradicional. E eu, de gente simples. Daí que com toda a insegurança dos meus dezesseis anos, protelei o mais que pude o famoso dia de ir até a casa dele para um almoço, a fim de ser apresentada. Ele já frequentava a minha com total desenvoltura. A dele, eu conhecia apenas de passar em frente. Nunca havia entrado. A casa metia medo na gente. O pé direito alto, os móveis de madeira de lei, uma profusão de porcelanas e cristais, uma infinidade de retratos. Fui recebida pelo pai e pela mãe. A senhora estava vestida como quem ia não sei naonde. Roupa de andar em casa que não era. Sem falar no tanto de ouro distribuído pelo pescoço, braço e dedos. Me deu as boas-vindas com um sorriso não muito generoso e pediu licença para dar ordens na cozinha. O pai dele, também muito alinhado, com ar grave e formal, nem bem me deu bom dia, já me pôs pra sentar na sala, ao lado dele, numa daquelas poltronas cujo encosto não permitia a menor descontração. E foi logo disparando: você vem a ser gente de quem? Era a pergunta que eu temia. Minha mãe era dona de casa. Meu pai estava aposentado por invalidez e o pai dele, meu avô, havia sido capataz ou gerente de fazenda, como queiram. E para dizer isso ao Seu Gonçalo? E como ele reagiria? Suei frio, fiquei nervosíssima. Que idiota e despreparada eu era. Fosse hoje, eu diria em alto e bom som, com o peito estufado. Venho a ser neta de João da Costa Soares e de Augusta Benedita Fontes, sou filha de seu Antonio e de dona Mariana Fontes da Costa Soares. E completaria. Gente de bem. Que viveu e vive do suor honesto do seu trabalho. Mas, na imaturidade daqueles anos, fui dizendo, tímida, vacilante a verdade que, unicamente por não sermos ricos, me constrangia. E, para minha surpresa, pergunta vai, pergunta vem, o seu Gonçalo ficou pasmo ao saber que eu era neta do finado João Soares. Seu avô foi um homem valoroso, ele disse, com entusiasmo na voz. Seu avô foi um pacificador. Pois você não deve saber, mas não foi nada fácil o começo das fazendas aqui em Mato Grosso. O governo de São Paulo, por exemplo, não tendo onde colocar seus presidiários, mandava todo mundo pra cá e largava nesses matos, com arma e munição, para se defenderem dos animais e outros perigos. Não era brincadeira não! Esses homens, armados e soltos, de repente eram recrutados para o trabalho nas fazendas. E eram homens de briga. Imagine para um gerente como devia ser difícil resolver os conflitos que sempre surgiam. Mas seu avô tinha uma qualidade diplomática inata. Era um homem sábio, prudente, apaziguador. Não fosse o seu avô, a família do compadre Antenor Correia nunca que tinha atingido os domínios que atingiu. E seu avô morreu bravamente, numa emboscada que foi preparada para o patrão, e ele, tomando a frente, como fazem os leais e corajosos, morreu no lugar do Afonso, que vem a ser pai do compadre Antenor.

É claro que eu já sabia dessa história (a emboscada foi por causa de grilagem de terras) e sabia que essa bravura não valeu de nada. Minha família ficou desamparada pelo tal fazendeiro que mal reconheceu os feitos do meu avô. Tanto que minha avó se mudou para a cidade e teve de criar os cinco filhos sozinha. Meu pai aprendeu carpintaria e trabalhou até os quarenta e três anos, até o dia em que se acidentou com a serra. Senti desprezo pelo meu futuro sogro. Ele contava a história do jeito dele. Mas, nessa hora ouvi a voz de mamãe no meu ouvido: ocê larga de ser besta, vai casar com Toninho e não com a família dele. Tratei de mudar de assunto, pra não deixar transparecer minha indignação. 

Sim, concordei. Meu avô era muito especial, meu pai sempre conta, mas eu não o conheci. Minha vó, sim, eu não só conheci como ouvi muitas histórias embalada na rede, no colo dela. Era mulher valente. Não tenho dúvidas, disse Seu Gonçalo, com voz impostada mas já bem mais simpática. Quando contei a ele como minha vó enfrentou a Coluna Prestes, no fim da conversa senti que tinha caído na graça da família.

Então o senhor nunca ouviu falar? Lá pelos idos de mil novecentos e vinte e... seis, se não me engano, a tão temida Coluna Prestes cruzou por estas bandas de Mato Grosso. Meu avô soube que ela vinha se aproximando num desses botecos de beira de estrada. Chegou em casa e pôs todo mundo alertado. Pois a Coluna, o senhor sabe, pegava os melhores cavalos, matava as reses, fazia um limpa nas guarnições das casas e etecetera. Diz vovó que o negócio não era brincadeira, não. Então, vovô tratou de manejar o gado para um pasto maior, naonde seria difícil a captura, e esvaziou a fazenda. Não ficou ninguém, todo mundo se refugiou nas proximidades da vila, naonde é agora a cidade de Chapada dos Guimarães. Pois vovó, antes de sair, disse: deixa esses cabras comigo. Preparou um tacho com doce de batata do cerrado e deixou prontinho, em cima do fogão. Diz que quando a Coluna chegou deve de ter ido direto no doce, diz que raparam o tacho. Pois que, um dos peões, no dia seguinte, foi assuntar pra ver se ainda estavam por lá. Qual nada, tinham corrido embora. Que fizeram a maior sujeira, a maior lambança na casa, isso fizeram. Mas que bateram em retirada, ah isso bateram. Nem não deu tempo de levarem muita coisa. Graças ao doce de vovó. Diz que dava uma diarreia
lascada.


*Reproduzido do livro "Não presta pra nada" (Editora Carlini e Caniato) https://carliniecaniato.com.br/

olhar conceito

marta

Marta Helena Cocco é professora com doutorado, poeta e escritora. Nasceu no Rio Grande do Sul, mas vive em Mato Grosso desde o século passado. Integra a Academia de Letras de MT

 

 

 


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