CONTO

Rosa dos Ventos - ou o desejo de uma ceia a dois*



Como um cruzado, do norte, do sul, do leste ou do oeste, faço o sinal sagrado e, de joelhos, sou o santo que peca e o espera em movimentos solitários. Não sei se ele chegará pela frente ou por trás – há tantos caminhos ao meu redor, mas mantenho meu olho aberto e, com meu dedo em riste, avanço pelo percurso não traçado, sempre em frente, ainda que o adiante possa ser de onde parti, tantos passos atrás, neste círculo que se devora. Por onde ele chegará eu não sei, mas a minha esquerda, sempre regada à sangue, quando se move, roça o lençol, preparando a minha direita, tão vazia, para receber o peso do corpo, do meu, do dele, que chegará, talvez num abraço, talvez no baque de um sorriso fechado. Quero que os dentes venham depois, com suas asperezas doídas e necessárias. Quero que a pele, no abraço, não revele ainda as unhas, que sei que marcam o tecido, do lençol, do travesseiro, da epiderme, de mim. Enrijecido até sua chegada, acredito que olharei o rumo de onde ele veio e serei convidado – por mim, por ele, por nós mesmos – a seguir, desviando-me da rota que sempre busquei, mas, sendo medroso, nunca pude perseguir. Irei porque quero, ele virá porque quer. Saberemos que as direções de onde viemos nunca importaram e que, despidos de tudo, podemos caminhar ou apenas nos deitar e, acima e abaixo, estaremos aconchegados, tendo, por teto e por chão, um firmamento que não deixa de girar.

Ao chegar, com a dureza das árvores do norte, com a frieza penetrante do sul, com a salgada maresia do leste ou a sequidão lânguida  do oeste, que ele tenha certo jeito matreiro de se aconchegar, escaldado que estou de contatos humanos, e, sorrateiramente, encoste pele na pele, músculo no músculo, desejos no desejo e que, por segundos, minutos ou horas, nossas línguas sejam uma língua perdida na Babel de quereres sempre frustrados, onde todos dizem tudo ao mesmo tempo e não se escuta nem um gemido febril. Seja pelo caminho à frente ou pelo caminho detrás, encontrando-nos, num oriente distante ou no ocidente da partida, o norte, o sul, o leste e o oeste estarão abertos para – qual seja – a entrada triunfal: ele, um espírito; eu, um santo; unidos em carne e sangue, boca aberta e língua exposta. Saciados e exaustos, será a nós, tão iguais e tão diferentes, na calmaria de tantos depois, permitido o descanso dos justos? 

 

*Conto enviado pelo autor atendendo à solicitação do tyrannus

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Paulo Sesar Pimentel é contista e professor de Literatura no IFMT (Bela Vista). Fotografado aqui por Luzo Reis

 


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