CONTO

Matiné*



Sonhou com o beijo sonhado… real como o cinema.

Julgava-o de todo perdido numa sala escura, sem projecionista. Antes ramo seco em meio às páginas daquele roteiro sem final, o beijo brotava agora da saliva imaginária, fazendo dançar sua alma e pestanas ao sabor de vinte e quatro quadros por segundo. O gosto era bom e tinha fome de tempo. O tempo, curta-metragem farto de sono, rompeu-se como celuloide e a fantasmagoria cedeu às luzes da manhã. The end.

Fazia frio. “Uns oito graus”, calculou a julgar pela temperatura da orelha desvalida que apontava para o teto, enquanto a outra se abrigava no aconchego do travesseiro desenvolvido pela NASA: “a espuma com memória oferece resistência uniforme à distribuição do peso da cabeça” — ou assim atestava o encarte, que a convencera a investir uma soma astronômica pelo produto. Quanto pesariam, naquele instante, cabeça e memória? O equivalente a um planeta e seu satélite, talvez? O certo é que o rastro daquele beijo onírico riscava-lhe o céu do pensamento, insubmisso ao campo gravitacional que a aprisionava à realidade.

Lembrou-se então de respirar. Ejetada ao mundo das coisas, era como se houvesse desaprendido o automatismo das funções vitais. Inspirou fundo para que a dor expirasse, mas o peito jazia em sístole. “Good morning heartache”. Bom-dia, Lady Day.

Abriu os olhos e contemplou a matéria inerte por alguns momentos: mesa de cabeceira, relógio digital, armário, luminária, porta, pufe, ela própria. Era domingo e o despertador não tocaria. Rompeu o casulo das cobertas e sentiu-se inusitadamente livre de sua morbidez larvar. Noutro ímpeto, alçou-se da cama e escancarou as cortinas. 

Os vidros suados do quarto davam a ver um pequeno jardim de cinerárias roxas, bordadas de branco pelo cristal da geada. “I’ve got those Monday blues, straight through Sunday blues…” e então, sem que se desse conta, o soar interior daquela voz de versos tristes sucumbiu ao canto ordinário de um tico-tico, que saltitava por entre as flores do canteiro.

Atrás de si, a cama em desalinho esquecia-se do calor do seu corpo, enquanto o sonho e o beijo, tais quais as cores de um filme antigo, já iam pálidos na tela das reminiscências. À sua frente, uma linda manhã de sol e azul intenso, céu de brigadeiro em Curitiba. A vida era doce, afinal. Real como o cinema.


*Reproduzido de http://www.candido.bpp.pr.gov.br/

vitor mann

ale

Ale Moretti vive em Curitiba. É mestre em Comunicação e Linguagens, redatora publicitária e roteirista, especializada em Cinema, TV e Multimídia.






 


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