CRÔNICA

Eu vim de lá pra cá



 Já estou voltando daqui a pouco de tantas saudades e na bagagem do retorno: emoções. Mesmo que eu odeie Roberto Carlos. Também já estou farto do lirismo comedido de "o importante é que a nossa emoção sobreviva". 

Nos subterrâneos do metrô carioca, na véspera da completude dos meus 60 anos, conversei com uma negra grisalha muito bonita (e felicíssima) com o cabelo dreadlock. Ela estava com um embrulho meio pesado e me ofereci pra carregar. Era um presente para seus sete netos. Uma dessas piscinas montáveis. Ainda teria mais duas horas de viagem até o seu lar, mas o frescor da sua felicidade era imbatível.

"Imagine quando você chegar e mostrar o presente aos netos...", eu disse. E já estava pronto pra expor-lhe a minha felicidade pelo natalício, mas ela se antecipou: "Estou fazendo sessenta anos hoje, e meu patrão me deu este presente que levo para os meus netos". Mesmo sendo um falastrão primoroso, aquietei-me. Não tinha a menor chance de superar a felicidade dela. Ou atrapalhar a consumação das suas seis décadas.   

Gosto - sempre gostei - do povo carioca. Sou muito bem tratado todas as vezes que visito o Rio. Por pessoas próximas e pela montoeira de desconhecidos com os quais converso na rua, como a mulher empoderada que abordei no metrô. É por causa de pessoas como essa negra que gosto do Rio. 

Um turbilhão de acontecimentos e novidades despencou sobre minha cabeça branca nestes últimos dias de 2018. Sim, nem tudo foi bom, mas patrolei essa parte. Pulei-a. Uma parte que não é muito boa e que não estou conseguindo lidar muito bem com ela é não saber como fugir de um texto meloso para este dia último. Mas, deixa pra lá...

No frigir dos ovos, estou fechando o ano com um saldo positivo de felicidade. E é o que compartilho aqui com as pessoas que visitam este site passarinho. Ah, e quero registrar que nesta reta final gastei as últimas doses de sorte previstas para esta temporada 2018 e, para tanto, contei com a participação de desconhecidos.

No meu primeiro dia de praia, assentado na areia e falando pelos cotovelos com uma amiga, eis que ela olha pra cima e sigo a direção do seu olhar. Um ambulante aponta para a areia ao meu lado e vejo quase sendo tragada pela areia (não movediça, de praia mesmo), minha carteira de habilitação, e junto com ela meu cartão de banco. “Puxa cara, muito obrigado...”, tive tempo de dizer enquanto ele seguia seu caminho bradando o produto que vendia.

Praia é algo que tem me deixado lerdo aqui. No segundo dia de praia, segui a linha turista. Aluguei guarda sol e cadeira e fiquei sentado ali, absolutamente, de butuca. Na sombra do guarda sol e refrescado por mergulhos vezeiros. Contando as horas, mas numa boa. Zarpei antes de o sol sumir e passei por um supermercado, depois rumei para o metrô. Na bilheteria, procuro e não acho... “porra, cadê meus óculos”.

Gente, quem trabalha com as palavras, na linguagem escrita, perder os óculos numa viagem é praticamente uma tragédia. Xinguei e esbravejei, silenciosamente. Procurei os seguranças do metrô, foram gentis, mas nada sabiam sobre meu para-brisa. As péssimas consequências atravessavam e se instalavam na minha cabeça desesperada. Decido refazer a trajetória até o metrô. Puto da vida. Quase desistindo, vou apenas até o supermercado e reencontro um segurança do local que estava por ali e indago-o sobre meus óculos, se por acaso... Ele abre um sorriso e leva a mão ao bolso da camisa... “o senhor deixou cair bem ali perto do caixa”. “Ô cara, muito obrigado...”, exclamo com felicidade. Vejo que ele também ficou muito feliz, talvez até mais do que eu. 

Então, se eu fosse religioso, diria que foi deus que me ajudou nesses quase acontecimentos de falta de sorte. Como sou ateu, não foi ele não. Foi o destino de lorenzo, um sujeito gente boa, do bem, que lhe preparou essas pegadinhas. E, principalmente, foram esses dois cidadãos do Rio de Janeiro, que estão entre milhões de pessoas do bem que moram nessa cidade. 

E também é por causa das pessoas de Cuiabá que amo essa cidade que escolhi para viver e para onde retorno nos próximos dias. Meu amor por Cuiabá começou já na minha vida intrauterina, quando minha mãe, nascida em Livramento (MT), havia se mudado para Niterói e chorava copiosas lágrimas pelas saudades do seu torrão natal.

Mais algumas horas e adentramos em 2019 e eu aqui repetitivo, dizendo do meu eterno ir e vir entre esses dois lugares que pontuam meus sessenta anos de labuta e vão arqueando meu lombo. E de preguiça. Sonho. Farra. Riso. Alegria. Choro. Melancolia. Loucura... e de prazeres. Sim. É sempre um grande prazer ser lido pelos visitantes do tyrannus!

dhl

cuia

Fotografia de Panda, um sujeito que me ajuda a gostar de Cuiabá e está em vias de tirar o seu brevê definitivo como piloto de drone para sobrevoar nas asas da sua imaginação







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