CONTO

A menina*



O homem apeou na Estação Clínicas do metrô e, sonambúlico, as pernas arrastaram-no ao longo do subterrâneo que conduz ao hospital. A sexta-feira desmoronava aflita na tarde quente daquele começo de janeiro, gordas nuvens inertes no céu, centenas de vestimentas urgentes se acotovelando, anônimos e determinados, Seu Guilherme, Seu Guilherme, ligaram pro senhor, a vizinha esgoelava da janela. Na recepção, o barulho dos ventiladores embaralhava o odor ácido de suor, o enjoativo cheiro doce de balas e biscoitos e chocolates. As crianças, lambuzadas, desfilavam envergonhados risos, correrias impertinentes. As mulheres aliviavam-se com improvisados abanadores. Os homens, entediados, acabrunhavam-se. Guilherme, enfiado numa roupa domingueira, driblou zonzo o povaréu, encaminhando-se ao setor de informações.

A vizinha se prontificara a ceder o número do telefone, “Pralgum recado, qualquer coisa”, e agora explanava, debruçada à janela, Seu Guilherme, é pro senhor ir lá pegar as coisas da, e calou-se, talvez comovida com a menina, que, no colo, agarrava-se ferozmente ao pescoço do pai, os olhos encovados, assustados. Há dois dias homiziara-se, junto com a filha, no compadre, três ruas abaixo, sem coragem de tornar à casa, as paredes externas por rebocar, a porta da cozinha provisória, o chão de cimento grosso, quanto a mulher se empenhara na compra daquele terreno!, “Aqui vai ser a sala, ali o quarto das crianças, lá o quintal”, adivinhava cômodos onde outros vislumbravam apenas touceiras de mato enfezado, quanto economizara para adquirir o material de construção, quanta alegria ao acompanhar, tijolo a tijolo, o lar eclodindo, “É um sonho, Gui, um sonho!”, murmurava, orgulhosa.

Autômata, a atendente recitou, “Quarto andar. Fim do corredor, elevador à esquerda. Próximo!”. Mais de um mês, a agonia: deixava o Jardim Reni escuro ainda para pegar no batente, ajudante de pedreiro numa obra na Vila Formosa que um irmão da Igreja Quadrangular arrumara, de lá cruzava a cidade até o Hospital das Clínicas para colher notícias, “Melhorou?”, indagava ansioso, contrariando a desesperança do médico, que avisara, “Seu Guilherme, o quadro é muito grave”, agarrando-se à misericórdia divina, a um senso de justiça, afinal, a mulher sempre boa para com todos, preocupada em fazer o bem, voltada para a família, as orações, o culto dominical, a casa…

Então, devagar, caminhou para a rua Cornélio de Arzão, o sol sapecando a calva, aguardou resignado o ônibus, desceu na Estação Itaim Paulista, tomou o trem até o Tatuapé, baldeou para o metrô, apeou na Sé, trocou de linha, saiu na Estação Clínicas, mais de duas horas de condução apertada. No quarto andar, a moça, inteirada do problema, “Ah, sim”, gritou para o colega, consultando uma lista, “Armário vinte e sete!”. A luz fria das lâmpadas fluorescentes banhava o chão limpíssimo; no relógio de parede o tempo, impaciente, velava. O rapaz depositou a bolsa de napa, judiada, sobre o balcão, a moça falou, “Tem que conferir, senhor”, e ele, submisso, abriu o zíper, passou os olhos, “Está certo”. Ela, no entanto, redarguiu, “Não, senhor, tem que verificar item por item… É praxe”. O rapaz, condoído com o embaraço do homem, esvaziou a bolsa, contou: “Um par de sapatos de salto alto preto; um vestido de alça azul-marinho; três calcinhas; dois sutiãs; um pijama; uma camisola; uma camisa de malha; uma bata; uma calça jeans; escova, pasta de dente, chinelo, e, ahn!?, uma… prótese dentária…”.

Esquivo, Guilherme balançou a cabeça, a mulher não gostaria nada nada de saber-se exposta assim, a ponte móvel talvez sua única vaidade, nunca falou daquele assunto com as amigas, nem os parentes próximos, irmãos, irmãs, pai, mãe, ninguém tinha ciência, mesmo com ele, seu marido, demorou a confessar, a contragosto, uma vez, no banheiro, quando havia tirado para assear, esqueceu de passar o trinco na porta, ele entrou, sem querer flagrando a peça na palma da mão, ela, uma vergonha danada, chorou duas horas seguidas, “Eu não tinha dinheiro pra ir ao dentista”, soluçava, sofrida, “Perdi uns dentes”, ele tentou acalmá-la, “Meu bem, eu também tenho falhas, isso aqui, ó, é um pivô”, sem adianto. E ver revelado, desta maneira, a olhos alheios, desrespeitosos, aquele segredo que acoitara por toda a sua curta vida… “É, é isso”, reafirmou, deslizando o zíper e tentando se livrar logo daquele incômodo. Mas a moça ainda disse, “Senhor, tem que dar baixa. Assine aqui, nesta linha”, e ele, trêmulo, garranchou a sua melhor letra.

Quando cruzava outra vez o nó daquele povo todo que lotava o salão de recepção, sentiu as pernas escurecerem, a vista fraquejar, e, não fosse uma senhora gorda, teria desabado no chão imundo. Logo, entretanto, alguém franqueou um lugar entre as cadeiras de plástico vermelho, surgiu um copo d’água, o segurança, autoritário, aproximou-se, espalhando o bolo que se formara, “Desafasta, gente, pro homem respirar”. Ainda aturdido, Guilherme minimizou, encabulado, “Foi só uma bobagem, desculpem… está tudo bem agora… desculpem”, e buscou forçar o corpo a erguer-se, mas este, estúpido, desobedeceu, arriando de novo… Então, vencido, levou as mãos ao rosto e, agitado, desatou, “Ai, meu deus, o que vai ser da menina, o que vai ser? Eu já estou acabado… não valho nada mesmo… nada me afeta mais… mas, e a menina?, coitadinha… o que vai ser dela, agora?, tão pequenininha, tão inocentezinha… ai, meu deus, o que vai ser dela, gente, o que vai ser?”


*Reproduzido de http://revistapesquisa.fapesp.br

revista cândido

ruf

O mineiro Luiz Ruffato, ganhador de inúmeras premiações e com projeção internacional, é um dos principais autores da literatura contemporânea brasileira

 

 

 


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