CONTO

O grilo na palma da mão*



Uma pequena mão espalmada. Os olhinhos do menino olhando, olhando, o pequeno inseto pousado em sua mão direita.

Noite de lua possuindo o corpo da paisagem. Mas um corpo doente, deformado, favelas miseráveis mostrando um tumor social aberto, crônico e profundo.

Chiquinho, seminu, mergulhado nesse instante de contemplação. Ele e o grilo como criaturas imóveis, distantes de tudo, no centro da própria imobilidade. Como um respirar suspenso, imerso na atenção, preso aos mínimos movimentos do grilo. Uma curiosidade feita de teia armada para segurar o inseto. Seu peito magro enchia-se de prazer por ter na mão esse estranho bichinho. Uma forma estranha para ele... o que era aquilo? Olhava para as perninhas finas finas, engraçadas, e para aquele ente esquisito em seus contornos. 

A vó ameaçava com sua voz arrastada de sono e cansaço: "Se num drumi logo, esse grilo come ocê".

Mas o bichinho continuava ali, quieto, quieto. Bem pequenininho e ele tão grande! Chiquinho ficava olhando-o com seus olhos extasiados, ancorados naquele ponto em sua mão. Era um desses minúsculos insetos que nem era bonito ou atraente, mas ele era uma novidade surpreendente. Uma descoberta alegre num espaço onde os seres humanos viviam como lagartos cinzentos movendo-se por entre objetos sujos, quebrado, amontoados. Para o garoto, de repente, aquele ambiente do barraco é que era a irrealidade que o cercava - um inferno atroz carregado de gemidos, fome, insultos e gritarias. Seu mundo real era agora aquele grilo pousado em sua pequena mão, situado num minúsculo território planetário de enlevo - como o centro do mundo. Uma doce estação feita de repouso para o seu coração. Chiquinho continuava estático. Temia que qualquer movimento seu pudesse fazer o animalzinho escapulir, pondo fim ao seu prazer, deixando-o num vazio sem mais coisa alguma para se apoiar. Intimamente, sentia que o grilo era seu chão que o exilava de um atormentado cotidiano. 

Aquela estranha ligação, quase hipnótica, entre ele e o inseto mantinha-o fora de uma realidade que o machucava sempre. Assim, não mais sentia aquele mal-estar no estômago que o enfraquecia cada vez mais. Não existia a voz estrondosa do pai com suas mãos ásperas, peludas, a lhe bater tão pesadamente. Nem existia também o cheiro forte do lixo por todos os lados. Ele estava ali no chão daquele mágico momento, esquecido das confusões de cada dia. Ele até sorriu, de repente. 

Mas a voz desafinada e contundente da vó Xinha interrompeu novamente o seu prazer encantado. “Ocê tá é mangano comigo, guri teimoso! Larga já essa porcaria de grilo e venha deitá aqui”. A mão magra da avó bateu em sua mãozinha fazendo o grilo pular para bem longe. Assustado, Chiquinho recuou. Seus olhinhos aflitos buscaram onde poderia estar o bichinho. Quis gritar com raiva, mas a dor do estômago lhe queimando por dentro foi mais aguda do que o seu desespero. Sentiu uma forte tontura e caiu sobre os trapos sujos onde deveria dormir. A avó acudiu-o, afobada: “Chiquinho, meu Deus! Minha Santa Rita de Cássia!”. Segurou o corpinho frágil que suava frio. Apertou-o contra o seio enrugado. “Fala comigo. Fala com sua avó!”. Chamou logo um dos cinco meninos. Trouxeram-lhe um copo d´água. Ele foi voltando a si. Comeu depois um pedaço de pão velho que a avó lhe deu. O estômago melhorou. O brilho voltou ao seu olhar. Sua avó suspirou aliviada. Cada um voltou ao seu lugar, ali no chão duro, tendo por cama uns panos sujos e velhos.  

Durante a noite toda, o menino sofreu pela ausência do grilo. Em alguns momentos, as lágrimas escorriam pelo seu rosto magro. A lembrança da perda era, então, uma nova agonia entre outras tantas que enfrentava a cada dia. “Será que o grilo também não tinha mãe como ele? Será que gostava dele?”. Suas faces encharcavam-se de uma tristeza sombria, profunda. Ele se sentia despojado de mais uma coisa entre tantas que desejava ter: mãe, comida, casa bonita, uma rua alegre só para ele brincar com seus amiguinhos, e um estômago que não doesse tanto! Claro, também outros grilos para conversar com ele.

Mas apesar daqueles sonhos no canto de seu coração, ele sentia bastante mágoa, amargura a lhe roer o mirrado peito.

Porém, eis que seu olhar pousou num ponto próximo do seu sapato rasgado clareado pelo luar que jorrava pela fresta da janela descascada: o grilo, bem vivinho! Seus olhos sonolentos e lacrimosos se abriram na obscuridade rarefeita do barraco. O grilo estava ali! Seu coração bateu mais forte. Enxugou os olhos com suas mãos trêmulas para se certificar do fato. Lentamente, foi estendendo a mão direita até ele, numa tímida proximidade. E o que desejava ardentemente aconteceu. Milagrosamente, o grilo pulara sobre sua mãozinha trêmula de expectativa e ternura.

Parece que o grilo lhe soprou uma nova chama de vida, retirando de dentro dele um outro sorriso mais farto ainda, que sentiu sair rolando de dentro de seu estômago até seus lábios como a explosão de uma satisfação rara e reprimida, que guardava consigo desde que sua mãe morrera. Ele, que só engolia amargura e pão seco, mais os gritos de sua avó, os tapas do pai, os sopapos dos irmãos. Aquele sorriso brilhou como uma pequena estrela ali na escuridão de sua vida. Foi um alívio para seu pequeno corpo. 

O grilo era tão engraçado! Tão pequenino! Tão pequeno como ele se sentia muitas vezes quando os adultos ficavam tão raivosos. Parecia até que eles se espichavam e ficavam gigantes tentando esmagar a sua fragilidade.

O grilo estava ali quietinho em sua mão. Se ele se fosse – pensava – seria capaz de morrer. Por que viver mais sem o grilo? Ia ficar muito mais só com sua fome e aquela dor terrível em suas entranhas. Aquela dor que o acompanhava como um monstro malvado dentro dele. Quantas vezes fazia força para não gritar, com medo de que seu pai lhe batesse.

Chiquinho, iluminado pela luz suave do luar, contemplava com um saboroso encantamento e doçura o inseto pequenino.

Nesse minuto, um espirro desastroso cortou o silêncio.

O susto do menino foi menor que o seu desespero em ver o grilo escapar em pulos até sumir pela janela entreaberta. 

Sentiu uma dor a lhe rasgar por dentro. Um líquido quente subiu-lhe do estômago até a boca. O sangue, aos borbotões, espirrou pelo espaço como um grito vermelho, quase sufocando-o e molhando os farrapos. Lembrou-se da mãe que o havia abandonado um dia, como aquele grilo. Agora também o grilo o traíra, sem confiar no quanto ele lhe queria bem. Esse sentimento agudo virou pelo avesso todo o prazer que o envolvera há pouco tempo. Uma dor enorme lhe atravessou o corpo inteiro. Depois, um frio intenso foi ocupando sua carne e seus ossos.

Aos poucos, Chiquinho adormeceu para nunca mais acordar.

 

*Reproduzido do livro "Na margem esquerda do rio" (2002 - Via Lettera), com organização de Juliano Moreno e Mário Cezar Silva Leite, gerado a partir do Projeto Palavra Aberta

marilza

Marilza Ribeiro nasceu em Cuiabá. Uma autora expressiva no cenário das letras mato-grossenses há vários anos



 


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