TRECHOS

On the road*



“mas eu não me importava e seguíamos juntos numa boa – sem frescuras, sem aporrinhações, andávamos saltitantes um em volta do outro, como novos amigos apaixonados.”

“pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo fervilhante – pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos “aaaaaaah!”. Como é mesmo que eles chamavam esses garotos na Alemanha de Goethe?”

“Tenho uma garota que ronrona, ela tem só 16 aninhos, é a gatinha mais mimada que você já viu.”

“um colérico, corado e robusto inimigo de tudo que, ainda assim, possuía o sorriso mais charmoso e sincero do mundo quando a vida real se encontrava com ele suavemente durante a noite.”

“Certa manhã Carlo acordou e escutou “pombos vulgares” grasnando do lado de fora de seu cubículo.”

“Se vocês continuarem assim, vão acabar pirando. Mas enquanto continuarem, me mantenham a par te tudo.”

“Ficamos deitados de costas, olhando para o forro e refletindo sobre o que Deus deveria estar pensando quando fez a vida ser tão triste assim.”

“Não me refiro a galanteios – mas sim a um profundo diálogo de almas, porque a vida é sagrada e cada momento é precioso.”

“Ah, foi uma noite ótima, uma noite quente, uma noite para tomar vinho, uma noite enluarada, uma noite para abraçar sua garota e conversar e cuspir e viajar no cosmos.”

“E ai estava minha carreira em Hollywood – minha última noite na cidade e eu ali, passando mostarda no meu colo nos fundos de um mictório de estacionamento.”

“Mas pelo que pude perceber, ele era apenas um vagabundo caminhante semi-respeitável.”

“Não é verdade que você começa a vida como uma criancinha crédula sobre a proteção paterna? E então chega o dia da indiferença, em que o cara descobre que é um desgraçado, um miserável, fraco, cego e nu, e com aparência de um fantasma fatigado e fatídico avança trêmulo por uma vida de pesadelo.”

“Maldita cidade! A carona que consegui pegar foi com um sujeito magricela e desfigurado que acreditava no jejum como forma de preservar a saúde. Quando lhe contei que estava morrendo de fome, enquanto rodávamos para o leste, ele disse: “Muito bom, muito bom, não há nada melhor para você. Eu mesmo não como há três dias. Vou viver até os 150 anos”. Ele era um saco de ossos, um boneco desengonçado, um palito quebrado, um maníaco. Eu poderia ter pego carona com um gordo endinheirado que diria: “vamos parar nesse restaurante e comer umas costelas de porco com feijão.”.

“Ah, os orifícios do ofício.”

“e agora ela estava se dirigindo claramente para fora da minha cabeça ainda que suspensa na ponta da língua da minha mente.”

“Algo, alguém, algum espírito nos perseguia, a todos nós, através do deserto da vida, e estava determinado a nos apanhar antes que alcançássemos o paraíso. Naturalmente, agora que reflito sobre isso, trata-se apenas da morte: a morte vai nos surpreender antes do paraíso. A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar e nos submetermos a todos os tipos de náuseas singelas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente foi experimentada no útero e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte.”

”Ele arrastou essa gangue esfarrapada que Dean, Marylou, Ed e eu formávamos e deu início a uma festa ensurdecedora. A mulher espreitava lá de cima, ameaçou chamar a polícia. “Ora, cala a boca, seu trapo velho!”, berrou Greb.”

“Ele colocou óperas de Verdi e fez pantomimas delas metido em seu pijama com um grande rasgão na bunda. Estava cagando para tudo.”

“Ficamos maravilhados, percebemos que estávamos deixando para trás toda a confusão e o absurdo, desempenhando a única função nobre da nossa época: mover-se.”

“Tinha um jogo completo de correntes em seu quarto; dizia que as usava com seu psicanalista; eles estavam experimentando a narcoanálise e descobriram que Old Bull possuía sete diferentes personalidades separadas, cada uma mais terrível que a outra, à medida que se aprofundavam, até que ele se tornava um idiota furioso precisando ser acorrentado. A personalidade superior era um lorde inglês, a inferior, o idiota. Entre uma e outra, ele era um velho negro que ficava parado numa fila junto com todo mundo e dizendo: “Uns são filhos da puta, outros não; e isso é tudo”.”.

“Ela era loucamente apaixonada por esse homem, mas numa espécie qualquer de delírio; nunca havia murmúrios e muxoxos naquela casa, apenas longas conversações e um profundo companheirismo que nenhum de nós jamais estaria apto a compreender. Algo de curiosamente frio e antipático que se desenrolava entre eles era, na verdade, um tipo de humor por meio do qual eles comunicavam um ao outro suas emoções mais variadas e sutis. O amor é tudo; Jane nunca se afastava mais do que três metros de Bull e nunca deixava de escutar uma só palavra dita por ele, e ele falava bem baixinho, pode ter certeza.”

“Ele me parece estar perfeitamente ajustado para seu destino ideal, que é uma psicose compulsiva conflitando com uma pitada de irresponsabilidade psicopata e alguma violência.”

“já percebeu que as prateleiras feitas hoje em dia quebram ou então desabam sob o peso das quinquilharias depois de seis meses de uso? O mesmo acontece com as casas, e com as roupas. Esses filhos da puta já inventaram o plástico e com ele poderiam fazer casas que durassem para sempre. E os pneus? Os americanos se matam aos milhões todos os anos com pneus de borracha defeituosa que aquecem nas estradas e estouram.”

“Ela estava com um grupo de turistas, acompanhados por um guia. Usavam um anel de diamantes no minguinho. Escorou-se numa parede para descansar alguns instantes quando um árabe arrancou-lhe o anel antes que ela conseguisse gritar. De repente, ela percebeu que já não tinha mais o minguinho. Hi-hi-hi-hi-hi!”

“Sofria de parestesia, uma doença que corrói a parte frontal do cérebro e você já não é mais responsável pelo que te passa pela cabeça”.

“Calem a boca, cambaza de cilhos da suta!”

“é um naufrágio terrível, as pessoas tentam desesperadamente se agarrar nas bordas do barco salva-vidas, e o velho está lá com uma machadinha, cortando os dedos de todos eles. ‘Sora daqui steus cilhos zda suta. Ezce barco é beu.’”

“’hor hor hor!’ Esse era seu riso “risado” – quando ele não estava rindo de verdade. O acumulador de orgones é uma caixa grande o suficiente para um homem sentar-se numa cadeira dentro dela: uma camada de madeira, outra de metal e mais uma de madeira capturam orgones da atmosfera e os mantêm cativos por um tempo suficiente até que o corpo humano os absorva numa quantidade superior à usual. Segundo Reich, orgones são átomos atmosféricos vibratórios do princípio vital. As pessoas têm câncer porque perdem seus orgones.”

“Algum dia a humanidade compreenderá que, na verdade, estamos em contato com os mortos e com o outro mundo, seja ele qual for; nesse exato instante, se apenas exercitássemos nossa força mental o suficiente, poderíamos prever o que vai acontecer nos próximos cem anos e seríamos capazes de agir para evitar todas as espécies de catástrofes. Quando um homem morre, seu cérebro passa por uma mutação sobre a qual não sabemos nada agora, mas que será bastante clara algum dia, se os cientistas se ligarem nisso. Só que por enquanto esses filhos da puta estão interessados unicamente em ver se conseguem explodir o planeta.”

“Parecia apenas uma questão de minutos quando começamos a rodar pelo sopé das colinas de Oakland e, repentinamente, atingimos o cume e vimos, esparramada à nossa frente, a fabulosa cidade de São Francisco, clara, sobre suas onze colinas místicas, com o Pacífico azulado e sua muralha elevada com a plantação de batatas ao longe, sob a névoa, e fumaça e resplendor no fim de tarde do tempo.”

“‘Viu que filho da puta que ele é? ’, disse Marylou. ‘Dean é capaz de te deixar na mão toda vez que pinta algo que o interesse mais. ’ ‘Eu sei’, respondi; olhei para o leste e suspirei.”

“Lá em Denver, lá em Denver. Tudo o que eu fazia era morrer.”

“No bolso do seu casaco, o velho negro tinha uma lata de cerveja que tratou de abrir; e o velho branco olhou invejosamente para ela e enfiou a mão no bolso para ver se ele poderia comprar uma lata também. Como eu morria! Me afastei dali.”

“Quando cruzávamos a fronteira entre Colorado e Utah, vi Deus no céu sob a forma de enormes nuvens douradas sobre o deserto que pareciam apontar seu dedo pra mim e dizer: ‘Passe por aqui e siga em frente, você está na estrada que leva ao paraíso.’”

“Compreendi então que a amava tanto que queria matá-la. Corri de volta pra casa e bati com a cabeça na parede.”

“Dei um soco na testa de Marylou às seis horas da tarde do dia 26 de fevereiro – na verdade, foi às seis e dez, porque me lembro que tinha que entregar uma carga importante dentro de uma hora e vinte minutos, foi na última vez que nos encontramos e quando decidimos tudo de uma vez por todas, e escuta só: meu polegar apenas roçou na testa dela, ela nem sequer ficou roxa, e até riu, mas o polegar quebrou logo acima do pulso e um médico horrível fez um arranjo complicadíssimo nos ossos, com três gessos separados, ao todo 23 horas esperando sentado em bancos duros esperando, etc., e o último gesso tinha um pino de tração fincado na ponta do meu polegar e aí, em abril, quando tiraram o gesso, o pino infectou meu osso e peguei osteomielite que se tornou crônica e depois de um operação fracassada e de um mês engessado, o resultado final foi a amputação de um pedacinho de carne dessa porra dessa ponta do dedão.”

“Estavam sempre soltando gracejos banais ou resmungando aquele velho papo-furado dos colégios do Leste. Não tinham nada em seus miolos moles, só a velha decoreba de Santo Tomás de Aquino mal compreendido.”

“‘Que raio aconteceu com esse teu dedo?’. ‘Dei um soco em Marylou e o dedo acabou ficando tão infeccionado que tiveram que amputar a ponta dele.’  ‘Por que cargas d’água você fez isso?’. Dean balançou a cabeça; ‘Você sempre foi um filho da puta desmiolado mesmo.’”

“De repente, Dean encarou fixamente um canto escuro e balbuciou: ‘Sal, Deus acaba de chegar. ’.”

“Ondulações no lago do vácuo era o que eu devia ter dito. O fundo do mundo é de ouro, mas o mundo está de cabeça para baixo.”

“Sabe o que fizeram comigo na prisão? Me botaram na solitária com uma bíblia; e eu me sentava em cima dela sobre o chão de pedra; quando viram o proveito que eu estava tirando dela, levaram-na embora e trouxeram outra, de bolso, minúscula. Não podia sentar nela, então a li de cabo a rabo.”

“‘Ops, mas e a tua mãe? ’, inquiriu Dean. ‘O que ela diz da marijuana? ’ ‘Oh, ela colhe pra mim. ’. E enquanto esperávamos no carro, Victor saiu, voou até a casa e falou rapidamente com uma velha senhora, que prontamente se virou e foi até o quintal, nos fundos, e começou a recolher murrugas de maconha que haviam sido colhidas dos pés e postas para secar sob o sol do deserto.”    


*Reproduzido de http://harryisalive.blogspot.com

jack

Jean-Louis Lebris de Kerouac, o Jack (1922-1969), escritor dos Estados Unidos, um dos líderes do movimento Geração Beat

 

 

 


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