ROMANCE (trecho)

Sombras sobre a terra*



Ela dobra à esquerda porque, em um casebre, à meia quadra, vive um cachorrão mau e avançador. Mas na primeira esquina vira à direita e segue descendo.

É noite alta. Caminha por uma das trilhas mantidas pelo tráfego entre o matagal e os seixos. De vez em quando, fundidos com o fundo dos prédios, casebres mudos. O beco, adiante, a umas quadras, povoa-se apertadamente, de ambos os lados, em um trecho de oitenta metros, até morrer ao pé do alto aterro da ferrovia. Forma-se então a rua principal de uma vila. Casinhas baixas, algumas. Outras, nem isso. De tijolo, de barro. Remendadas com madeira e lata. Apenas recortando-se na noite sob a própria luz que se projeta sobre o leito da rua às escuras. A primeira dessas casas tem uma porta ao canto que a destaca dentre todas de longe... É nessa que seus olhos estão cravados quando escuta um latido. 

Detém-se.

Silêncio.

O latido se repete, porém, não inquieta.

Prossegue.

Há um ar fresco, com cheiro de terra úmida. Vai deixando pelos lados cercas de arame rompidas gradualmente ao longo dos anos. O matagal se eleva à altura dos homens. 

Sobre o terreno pedregoso há uma pausada batida de cascos. Um cavalo cruza o beco. Solitário. Até mais abaixo. Até o rio. A passo lento, cabeça baixa... Como um homem!

Deixa-o ir. Segue em frente.

Coaxam sapos agora. Estão em um charco que a última chuva expandiu até o caminho, cobrindo-o de fulgores pálidos por entre o pasto.

- Milonga! Milonguita!

Chama-lhe assim uma voz embriagada; voz de uma sombra que surge cambaleante a poucos passos. 

- Milonguita!

Aproxima-se confiadamente do carinhoso que, ao inclinar-se, desequilibra-se e cai quase sobre ela.

Depois de repetidos esforços, ele desiste de levantar-se. Senta-se. Volta a chamá-la:

- Venha, não tenha medo!

Ela hesita um instante. Late.

- Depois que caí por sua causa! - joga na cara o caído, ao vê-la afastar-se correndo. 

Vê-se melhor o início da vila. Adiante, o beco abre dois braços também com luzes projetadas na noite. Têm, rua pelo meio, canaviais que os escondiam. Pela porta do prédio corroído, anguloso, distinguem-se formas humanas. Em frente, há outro casebre, ao qual se sobe por uma alta escadaria de pedra. No primeiro degrau, um vulto encolhe-se, parcialmente iluminado por trás. Adiante, de ambos os lados, na obscuridade, débeis réstias de luz. Turvando alguns desses raios, movem-se sombras densas.

Alguém se afasta do balcão que agora está bem desenhado através da porta angulosa, oscila no retângulo amarelo e funde-se com a rua sombria. 

Milonga safa-se com um salto para que não passe por cima dela o alucinado. Fica inerte.

Ninguém dorme nessas casas. Todas têm portas abertas e estão mais ou menos iluminadas.

Ouve-se um estrépito de latas batendo. E um caminhão surge entrando no beco.

- Para sob a luz!

Do caminhão descem sete homens dando um grande salto. 

Vestem roupas crioulas e populares. É gente dos sítios circundantes que vem por um momento e volta de madrugada.

Surgem mulheres sob as luzes das portas, ajeitando as vestes e os cabelos.

O lugar enche-se de vozes.

Milonga sobe os dois degraus da bodega.

Há um cheiro de cachaça. Da qual bebem todos: os que estão junto ao balcão; um homenzinho cabisbaixo, sentado em um banco, com seu violão; dois cavalariços, pequenos como macacos; no canto mais afastado, um índio oculto debaixo de um grande chapéu.

Quem atende é um gigante de camiseta, com longa mecha de cabelo esbranquiçado na testa e um olho só. Visto de perfil, pelo lado do olho, parece um santo. Pelo outro, algo feroz. Porque, ademais, da órbita vazia sai uma cicatriz que termina no queixo. De frente, o lado mau se sobressai ao bom; o olho que não existe nele é de doce mirar.

- Olhem a Milonguita! - exclama.

 

*Páginas iniciais do romance "Sombras sobre a terra" (LetraSelvagem), presenteado ao tyrannus pelo criador da editora, Nicodemos Sena, precioso amigo. A tradução é de Erorci Santana. Interessados em saber mais sobre a editora ou adquirir suas obras podem acessar o site http://www.letraselvagem.com.br

paco

Francisco Espínola (1901-1973), mais conhecido com Paco Espínola, foi um escritor , jornalista e professor uruguaio , pertencente à Geração do Centenário

 

 

 


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