CONTO

estado noturno*



viro de bruços, como se boiasse, e percebo que o meu estômago ainda dói. tenho comido muito rápido, como se a comida fosse um ódio, imagino que nado em uma piscina que cresce, quando vejo estou em alto mar. desisto do bruços, me sento na cama. Bruges, na Bélgica. eu estive lá, uma vez.

procuro meu chinelo com os pés, calço

caminho até a geladeira de funcionamento incansável.

abro a porta

em busca do pote de melão, por engano pego o de alho e desisto

de tudo, vou pra sala, me sento no sofá.

que desespero no peito

por não estar fazendo o que outros estão fazendo, dormindo. parece tão simples, as crianças fazem à beça, fechar os olhos, desligar a mente do mundo.

outro dia sonhei que

tocava um feto de nascimento prematuro e isso escureceu a minha mão, fui ficando cinza, Não encoste em nada, os médios gritaram, mas eu já tinha encostado nas paredes, nas cortinas, senti que ia morrer.

quando acordei anotei o sonho. foi a última vez que dormi.

pego a revista que está na mesa de centro. folheio no escuro

aquelas marcas de roupa querendo o dinheiro de todos nós e então me aborreço, sou manada, era pra eu estar dormindo igual a todas as outras criaturas.

fecho a revista, visto um robe.

desço o elevador de costas para o espelho.

-olá. – digo para o marcos porteiro da noite.

-dona Mirtes. – ele responde balançando a cabeça e aquilo é tão pouco, me sinto desamparada, sento no banco ao lado da portaria.

as velhas senhoras do meu prédio sentam ali na parte da tarde

conversando com o porteiro da tarde

–sem sono? – o marcos de repente me pergunta, sorrio como se não me importasse

a brisa noturna invade meu robe num pequeno arrepio.

-e você, dorme que horas?

-não sou muito de dormir, dona Mirtes.

entrou um morador.

-boa noite.-  ele disse pra nós dois

ficou no ar um cheiro de cigarro depois que ele passou.

–penso que é melhor dormir menos. – o marcos prosseguiu. – assim quando eu morrer, terei vivido quase a idade completa do meu ano de morte, não apenas os dias.

-bom, isso é verdade. mas eu não sei se.

-o que?

de novo a brisa

crescendo grande boca.

–está ficando frio.  – eu disse, me levantando.

–boa noite, dona Mirtes.

-boa noite. –palavras frouxas

e o elevador me levando para o Abismo que é não saber o que fazer com o tempo, minha mente está suspensa, eu só queria tocar no feto e escurecer.

 

*Reproduzido de https://livreopiniao.com

alinebei

Aline Bei é paulistana, nascida em 1987, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018, na categoria Melhor Romance de Autor com Menos de 40 anos, com o seu primeiro romance, "O peso do pássaro morto"

 


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