PROSA FILOSÓFICA (trechos)

Reflexões do "pai do pessimismo"*



A Intuição é mais forte que a Razão

Devemos sempre dominar a nossa impressão perante o que é presente e intuitivo. Tal impressão, comparada ao mero pensamento e ao mero conhecimento, é incomparavelmente mais forte; não devido à sua matéria e ao seu conteúdo, amiúde bastante limitados, mas à sua forma, ou seja, à sua clareza e ao seu imediatismo, que penetram na mente e perturbam a sua tranquilidade ou atrapalham os seus propósitos. Pois o que é presente e intuitivo, enquanto facilmente apreensível pelo olhar, faz efeito sempre de um só golpe e com todo o seu vigor.

Ao contrário, pensamentos e razões requerem tempo e tranquilidade para serem meditados parte por parte, logo, não se pode tê-los a todo o momento e integralmente diante de nós. Em virtude disso, deve-se notar que a visão de uma coisa agradável, à qual renunciamos pela ponderação, ainda nos atrai. Do mesmo modo, somos feridos por um juízo cuja inteira incompetência conhecemos; somos irritados por uma ofensa de carácter reconhecidamente desprezível; e, do mesmo modo, dez razões contra a existência de um perigo caem por terra perante a falsa aparência da sua presença real, e assim por diante.

Em tudo se faz valer a irracionalidade originária do nosso ser.

O mundo em que vivemos

Num mundo como este, onde nada é estável e nada perdura, mas é arremessado em um incansável turbilhão de mudanças, onde tudo se apressa, voa, e mantém-se em equilíbrio avançando e movendo-se continuamente, como um acrobata em uma corda – em tal mundo, a felicidade é inconcebível. Como poderia haver onde, como Platão diz, tornar-se continuamente e nunca ser é a única forma de existência? Primeiramente, nenhum homem é feliz; luta sua vida toda em busca de uma felicidade imaginária, a qual raramente alcança, e, quando alcança, é apenas para sua desilusão; e, via de regra, no fim, é um náufrago, chegando ao porto com mastros e velas faltando. Então dá no mesmo se foi feliz ou infeliz, pois sua vida nunca foi mais que um presente sempre passageiro, que agora já acabou.

O Jogo da Morte

Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça.(…) No final, ela vence, pois desde o nascimento esse é o nosso destino e ela brinca um pouco com sua presa antes de comê-la. Mas continuamos vivendo com grande interesse e inquietação pelo maior tempo possível, da mesma forma que sopramos uma bolha de sabão até ficar bem grande, embora tenhamos absoluta certeza de que vai estourar.

 

*Reproduzido de https://omartelodenietzsche.com

schop

O alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) desenvolveu um sistema metafísico ateu e ético que tem sido descrito como uma manifestação exemplar de pessimismo filosófico




 


Voltar  

Confira também nesta seção:
20.05.19 12h00 » Festa e paúra*
17.05.19 21h00 » Espelho*
15.05.19 18h00 » Pedra, papel e tesoura*
13.05.19 10h00 » O Velho e o Mar*
10.05.19 20h30 » Criança `perdido´
08.05.19 19h00 » Motivo*
06.05.19 11h00 » Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral*
03.05.19 21h00 » O sacristão*
01.05.19 16h00 » Milho Cozido*
29.04.19 12h00 » Duelo*
26.04.19 21h00 » Oxê*
24.04.19 19h00 » Os porcos*
22.04.19 00h10 » O laboratório do Dr. Frankenstein*
19.04.19 19h30 » Os Devaneios do General*
17.04.19 18h30 » Um solitário à espreita*
15.04.19 13h00 » O amante de Lady Chatterley*
12.04.19 20h30 » Livro de ocorrências*
10.04.19 14h00 » Catedral*
08.04.19 01h50 » Puta merda
05.04.19 20h00 » O enforcado*

Agenda Cultural

Veja Mais

Últimas Notícias

Mais Notícias

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet