CONTO

Dia-a-dia*



O dia corre célere. A água cai do chuveiro velho e entupido. Água morna de verão. Ela diz:

-Pai, quero a pasta de dente, minha escova também.

-Tô no banho...

Os dias continuarão a correr. Pensava naquela água doce que escorria sobre seu corpo como um fiapo de vida. Os jornais impressos, a tevê, as rodas de amigos, todos empregando um tom alarmista para a vida curta desse bem não renovável. Sempre aprendi que os rios correm para os mares - o mar sedento, toda a sede do mundo. Minha outra filha falou com os olhos ingênuos, do alto de seus nove anos:

-Pai, a água do planeta vai acabar logo. Teremos poucos anos de doces riachos!

Privilégio de brasileiros um banho desses... o pensamento escorria...

-Pai, a escova de cabelo tá aí?

-Tô saindo...

Conversava à tarde com o Manolo, no carro, enquanto corríamos na avenida larga e sinuosa. Descíamos como um rio - lá embaixo deve ser o mar, vamos mergulhar...

Ele falava:

-Porra, que dureza! Dá vontade de se suicidar!

Riu muito, olhando de soslaio para ver minha reação. Sabia que ele zombava. O cara era um tremendo gozador. Assim mesmo respondi:

-Já passamos da idade de nos suicidar. Isso é coisa de jovens, dos vinte anos.

Imaginava as manchetes: POETA JOVEM E PROMISSOR SUICIDA-SE NA MADRUGADA.

Ele continuou: 

-Imagina, você, bundão, com um monte de filhas lindas, não aguentando a barra, se suicida! Todo mundo iria escrotizar... Ria, ria, ria.

-Porra! Depois que tem filhos, não dá mais. Louco sim, mas morto não!

O carro mergulhou.

-Pai, preciso de grana pra levar pra escola. A professora pediu.

-Já vai...

A toalha áspera, o colchão no chão, o computador, as fitas de vídeo, escritos diversos, jornais, livros, tudo espalhado, o quarto estava o fim do mundo. As roupas, já bem desgastadas, repousando quietas no fundo da gaveta. O cachorro latindo lá fora. Meus olhos ainda ardendo com os restos da espuma do sabonete cheiroso que vive fora da saboneteira.


*Reproduzido do livro "Na margem esquerda do rio" (2002 - Via Lettera), com organização de Juliano Moreno e Mário Cezar Silva Leite, gerado a partir do Projeto Palavra Aberta

ronaldo mazza

ferreira

Eduardo Ferreira é natural de Guiratinga (MT), mas vive em Cuiabá quase desde sempre. Milita em várias artes e é portador de uma robusta "capivara cultural"



 


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2 Comentário(s).
grato por participar do tyrannus, maria lucia...
enviada por: lorenzo    Data: 09/03/2019 17:05:19
..és um monstro literário...
enviada por: maria lucia de mesquita    Data: 09/03/2019 09:09:34

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