2046 – Segredos do Amor

Muita coisa fica rodeando a cabeça destes tiranídeos, como que pedindo pra se concretizar como pauta. Sacou?! Aqui não há um poder absoluto que parte de mim ou da Fátima. Pensamentos e lances de dados têm algo em comum. Ou incomum. Isso é que é bom, porque quando o assunto se intromete e bate duro, adeus sinuca de bico. É só abrir espaço para a bola da vez.

O cinema do chinês Wong Kar-wai, o grande esteta do cinema mundial moderno, na opinião deste humilde escrevinhador, que pensa e sabe que não conhece tudo sobre cinema (graças a Deus); cai como uma luva. “2046 – Segredos do Amor” (2004) nos hipnotizou nesta noite 15/16. Acompanho o trabalho desse cineasta há vários anos e conheço um punhado de seus filmes. Adoro-os. Acho que sua produção fílmica beira a perfeição neste mundo fragmentado, que necessita de requisitos potentes para conquistar o público. À primeira vista, não é o que este filme oferece.


Paciência. É a palavra chave pra se deleitar com a magia de Wong Kar-wai. A narrativa é arrastada, lenta. Os filmes de arte gozam dessa prerrogativa. Não são películas que entram por uma retina e saem pela outra. Estabelecem-se em algum lugar da nossa memória e se enraízam. Acostumei-me com isso. Arte que é arte pra valer, pensando bem, mais incomoda do que diverte. Diversão tem mais a ver com entretenimento e não é este o caso.




Uma história de amor centrada num personagem canastrão (com  bigode a la Clark Gable [chinês com cinismo de canto de boca e ainda com bigodinho!] deve ter sido o vento que levou esse mustache ralo lá pros lados orientais). Ele é um escritor fanfarrão, conquistador e discreto, se é que é possível combinar essas características. Está às voltas com uma obra que lhe vai surgindo, ambientada no ano de 2046, que também é o número do quarto de um hotel barato, objeto do seu desejo, onde mora. Envolve-se com diferentes mulheres, achando que estará sempre imune ao amor. Sujeito ingênuo.  




O filme tem uma narrativa literária. Salta pra lá e pra cá, oscilando entre a vida do escritor e a sua ficção. Claro que tudo vai se misturando... Onde já se viu uma obra contemporânea não se equilibrar na tênue linha que separa a realidade da ficção? As músicas belíssimas (latinas e americanas em ambiente tipicamente oriental dos anos 60), fotografia e cenário impecáveis, luz inebriante e personagens consistentes já bastariam. Mas ainda há a soberba direção do diretor chinês.




Esse filme é uma ode a vida de um homem. Um presente para comemorar o dia do homem. (todo dia é dia do homem e da mulher).  Um segredo só existe se for contado para um buraco, no tronco de árvore, e depois cerrá-lo com barro. Uma andróide que só consegue chorar horas depois de experimentar a emoção e sua lágrima é o vestígio da dor. Ensinamentos e reflexões que emanam da cinematografia deste mestre da sétima arte.


  




Voltar  
3 Comentrio(s).
Quando precisarem de uma fotógrafa, é só piar.
enviada por: Valéria del Cueto    Data: 22/10/2012 10:10:10
um elogioso complemento:
fátima arrasou! lixou unha durante a conversação. acompanhando-a observá-lo por sobre os óculos, o que ruffato imaginava? five stars, meo.
enviada por: fochesatto    Data: 22/10/2012 10:10:10
o bom desse filme do kar-wai é que ele funciona melhor depois que você assiste chunking express e, é claro, in the mood for love. outro que fez bem essa construção quebra-cabeça complementar na própria filmografia é tsai ming-liang. já viu algo desse cabra?
enviada por: fochesatto    Data: 22/10/2012 10:10:10

Confira também nesta seção:
15.07.20 00h10 » "Hei, hou, Borunga chegou" (trecho)*
15.07.20 00h10 » Biruta*
11.07.20 18h00 » Biruta batuta
08.07.20 00h10 » Meu negro de estimação*
08.07.20 00h10 » Não choro porque meus olhos ficam feios
04.07.20 14h19 » Marília, sonhos e sorrisos
04.07.20 11h31 » Quem vem lá?
01.07.20 00h01 » Cérebros
01.07.20 00h01 » Almoço Nu (trecho)*
24.06.20 00h10 » Papel de parede*
24.06.20 00h10 » Seleta de frases*
17.06.20 17h31 » Sem pena? É quarentena
17.06.20 00h10 » Laboratório de deuses
17.06.20 00h10 » Sono e vigília*
10.06.20 16h45 » Está pedreira na clareira
10.06.20 00h10 » Ulysses (minitrecho)*
10.06.20 00h10 » Labirinto de rosas*
03.06.20 00h10 » "Grande Sertão: Veredas" (trechos)*
03.06.20 00h10 » Corá* (trecho)*
01.06.20 09h40 » Quer comprar?

Agenda Cultural

Veja Mais

Últimas Notícias

Mais Notícias

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet