CONTO(trechos)

Coitado do homem cujos desejos dependem*



"Com um sadismo na face, detergiu as mãos vermelhas de sangue, purificou os pés com pisadas fortes e seguras, encheu o pulmão de um ar que agora lhe era diferente: era um ar só teu. Tinha sua impressão digital naquele oxigênio. Começou a perceber a vida com outro olhar, uma visão mais apurada das coisas, uma visão de águia em dia de caça. Ao sair da casa da defunta, com o corpo ainda repleto de indícios do que acabara de ocorrer, surpreendeu-se ao fitar o mundo de frente, e não mais seu chão, como sempre fizera. Deu-se ao atrevimento de olhar o céu, queria descobrir de que cor era. O céu, que sempre esteve ali, mas que ele nunca enxergou. O céu azul. Uma cor nova. Azul. Era tão bonita, diferente do vermelho, mas ao mesmo tempo igual: cores belas, irresistíveis, manchadas de uma impaciência rica e brilhosa." 

...

"A morte lhe havia dado a Poesia das Montanhas para entender as coisas da vida. Percebia agora que todos aqueles que o rejeitaram a vida toda eram crianças amedrontadas, à procura de uma aprovação qualquer, de um passar de dedos lamentosos pelas orelhas frias. Queriam fazer parte d’algum grupo. Entendera que não existia beleza, só a Natureza, e que o natural não se acanhava diante da solidão. Ele era assim, e fora assim a vida toda: solidão em quarto pequeno de moitas rápidas em dias de frio campestre. Apesar de nunca ter ido a uma montanha, Herculano sentira nas veias que passara pela vida como homem do campo, não sendo ele homem da cidade e não pertencendo a nada que ali se formava. Vira que na verdade era o mais sortudo dos homens, pois nunca se deu por vencido diante das exigências humanas."   


*Reproduzido do livro "Coitado do homem cujos desejos dependem", que está quase  lançado com o selo Arcada (https://www.leiaarcada.com/)

meloni

Rodrigo Meloni é jornalista, articulador político, ativista gay e estudioso da comunicação de massa, o escritor que já teve contos publicados em diversos blogs e sites mato-grossenses e nacionais, se aventura na publicação de seu livro de estreia

 


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