NOVELA (trecho)

A mão encantada (trecho)*



O fanqueiro passou muitos dias sm sair de casa, o coração dilacerado por esta morte trágica, que el causa por ofensas tão ligeiras e por um meio condenável e danável, neste mundo como no outro. Havia momentos em que considerava tudo isto um sonho e não fora o gibão esquecido na relva, testemunha irrecusável que brilhava pela ausência, teria desmentido a exatidão da sua memória. Uma noite, enfim, quis contemplar a verdade com os próprios olhos e dirigiu-se ao Pré-aux-Clercs, como se lá fosse a passeio. A vista se lhe turvou ao reconhecer o jogo de bolas, onde se realizara o duelo, e foi obrigado a sentar-se. Ali jogavam procuradores como é seu costume antes de cear; e Eustache, apenas se dissipou a neblina que lhe cobria os olhos, acreditou divisar no terreno liso, entre os pés afastados de um deles, uma grande placa de sangue.

Levantou-se convulsivamente e começou a andar depressa para sair do passeio, guardando sempre a mancha de sangue debaixo dos olhos: conservando a sua forma ela pousava sobre todos os objetos em que seu olhar se detinha ao passar, como essas manchas lívidas que vemos por muito tempo voltear ao redor de nós quando fixamos os olhos no sol.

Ao retornar a casa, julgou perceber que o tinham seguido; só então imaginou que  pessoas do Palácio da Rainha Margarida, diante do qual passara pela manhã anterior e naquela mesma noite; o haviam talvez reconhecido; e, muito embora as leis sobre o duelo não fossem, nessa época, executadas com rigor, refletiu que podiam muito bem achar conveniente mandar para a forca um pobre mercador, como exemplo para os cortesãos em que não se ousava tocar, nessa época, o que mais tarde veio a acontecer.

Estes pensamentos e muitos outros lhe acarretaram uma noite bem agitada; não podia fechar os olhos por um só instante sem ver mil patíbulos a mostrarem-lhe os punhos, e de cada qual pendia, na ponta de uma corda, um morto que se torcia de rir, horrivelmente, ou um esqueleto cujas costelas se desenhavam, nítidas, contra o carão da lua.

Mas uma ideia feliz veio varrer todas essa visões bifurcadas: Eustache recordou-se do lugar-tenente civil, velho freguês do sogro e que já o acolhera com bastante afabilidade; prometeu a si mesmo ir procurá-lo no dia seguinte, econfiar-lhe inteiramente, persuadido de que o protegeria, ao menos em consideração a Javotte, que ele vira e acariciara em pequenina, e a Mestre Goubard, a quem estimava. O pobre mercador adormeceu por fim e repousou até de manhã sobre o travesseiro desta boa resolução.

No dia seguinte, por volta de nove horas, batia à porta do magistrado. O criado de quarto, supondo que ele vinha para tirar a medida de roupas, ou propor alguma compra, levou-o sem demora ao amo que, meio derreado numa grande poltrona, entregava-se a uma leitura divertida. Estava com o antigo poema de Merlin Coccaie na mão e deleitava-se especialmente com a  narração das proezas de Baldus, o valente protótipo de Pantagruel, e ainda mais com as sutilezas e ladroeiras do Cingar, esse grotesco padrão pelo qual nosso Panurgo foi moldado com tanta felicidade.


*Reproduzido de "A mão encantada" (Editorial Alhambra), tradução de Silvia Heller e Álvaro Mendes

nerval

Apesar de pouco conhecido, Gérard de Nerval (1808-1855) é um dos mais importantes autores da literatura francesa. Deixou belo legado que inclui verso e prosa, passando por libretos de óperas. O crítico literário Harold Bloom referiu-se a Nerval como "um original indomável e intemporal"

 


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