ROMANCE (trechos)

O apanhador no campo de centeio*



 “Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso.”

§

“A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, começa a sentir saudade de todo mundo.”

§

“Não importa que seja uma despedida ruim ou triste, mas, quando saio de um lugar, gosto de saber que estou dando o fora. Se a gente não sabe, se sente pior ainda.”

§

“- E a vida é um jogo, meu filho, a vida é um jogo que se tem de disputar de acordo com as regras.

– Sim, senhor, sei que é. Eu sei.

Jogo uma ova. Bom jogo esse. Se a gente está do lado dos bacanas, aí sim, é um jogo – concordo plenamente. Mas se a gente está do outro lado, onde não tem nenhum cobrão, então que jogo é esse? Qual jogo, qual nada.”

§

“Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler e fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade. Mas isso é raro de acontecer.”

§

“Ninguém seria diferente. A única coisa diferente seríamos nós. Não que a gente tivesse envelhecido nem nada. Não era bem isso. A gente estaria diferente, só isso.”

§

“Tem gente que passa dias procurando alguma coisa que perdeu. Eu acho que nunca tive nada que me importaria muito de perder. Talvez por isso eu seja em parte covarde.”

§

“Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

“Só porque uma pessoa morreu não quer dizer que a gente tem que deixar de gostar dela… Principalmente se era mil vezes melhor do que as pessoas que a gente conhece e que estão vivas e tudo.”

§

“Há coisas que deviam ficar do jeito que estão. A gente devia poder enfiá-las num daqueles mostruários enormes de vidro e deixá-las em paz. Sei que isso não é possível, mas é uma pena que não seja. De qualquer maneira, continuei a pensar em tudo isso enquanto ia andando.”

§

“Mas a melhor coisa do museu é que nada lá parecia mudar de posição. Ninguém se mexia… Ninguém seria diferente. A única coisa diferente seríamos nós.”

§

“Esse é que é o problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas, quando se chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve “foda-se” bem na cara da gente.”

§

“Não é nada engraçado ser covarde. Talvez eu não seja totalmente covarde. Sei lá. Acho que talvez eu seja apenas em parte covarde, e em parte o tipo de sujeito que está pouco ligando em perder as luvas. Um de meus problemas é que nunca me importo muito quando perco alguma coisa.”

“O homem imaturo é aquele que quer morrer gloriosamente por uma causa. O homem maduro é aquele que contenta-se em viver humildemente por ela.”

§

“Não é tão mal assim quando tem sol, mas o sol só aparece quando cisma de aparecer.”

§

“Esta queda para a qual você está caminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem que cai não consegue nem mesmo ouvir o baque do seu corpo no fundo. Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que, num momento ou outro de suas vidas, procuram alguma coisa que seu próprio meio não pode lhes proporcionar. Ou que pensavam que seu próprio meio não poderia lhes proporcionar. Por isso, abandonam a busca. Abandonam a busca antes de começá-la de verdade.”

 

*Excertos do livro “O apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger. Tradução Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster. 18ª edição., Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2012. Materia reproduzido do site https://www.revistaprosaversoearte.com

 

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Jerome David Salinger (1919-2010), icônico escritor norte-americano, principalmente, devido a obra que tem trechos publicados aqui


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