CRÔNICA

Puta merda



"É firmemente segurado pelo passageiro de um carro quando o motorista é meio doidão". Você sabe o que é? Eu sei e já estive mais de acordo com a definição "aspada". "Puta merda"... é muita coisa entre aspas num único parágrafo.

Eu bem que poderia (e deveria?) demonstrar minha versatilidade  e fugir das aspas, usando itálico, negrito, notas de rodapé, parênteses, colchetes e mais tudo que direcionasse ao estilo rococó dos textos científicos.

Mas, é muito sério isso. Não tenho essa formação acadêmica e vou me alongar somente naquilo que os escrevinhadores autodidatas têm de mais valioso: a memória. É assim que se trata o maldito esquecimento, de forma vingativa. Colocar logo no papel aqueles pensamentos mais cotidianos que nos acometem enquanto cumprimos o estatuto do corpo. Viver.

Viver sempre foi uma questão de segurança. No gesto físico e no psicológico. Digo no psicológico, pela razão de que não sei se o tal "puta merda", aquele acessório dos carros, garante a segurança dos seus passageiros. Aí me vem à memória a primeira vez que pensei nessa expressão que também tem outros significados. Tipo uma interjeição diante de algo assim desagradável.

O meu pai segurando com uma das mãos, enquanto passageiro no banco da frente de um automóvel (pai sempre vai banco da frente, respeitem isso), aquela pecinha em forma de alça, situada sobre a porta do veículo. E eu pensava: "pô, porque o meu pai vai grudado nesse troço. Basta entrar e sentar no carro, que ele logo se agarra naquilo".

E achava engraçado aquilo, embora, naqueles tempos, sequer me preocupava com esse papo de que com o passar dos anos, a gente vai virando um pouco e bastante, os nossos pais. Isso, aliás, não deve ser motivo de preocupação. Assim penso, talvez, porque jamais fui a um psicanalista e nem vou me estender sobre isso. É que quem sabe, esse papo sirva para uma outra prosa.

Voltando ao puta merda, agora, chegou a hora de confessar que não sei bem quando ou por quais motivos, hoje em dia, todas as vezes que entro num carro e não sou o motorista e estou no banco da frente, vou logo tratando de me agarrar no puta merda.

De uns tempos pra cá, sempre com o puta merda¹ (numerozinho fake) vez em quando me perseguindo, na cachola ou dentro dos carros, passei a me policiar na tentativa de não usar o puta merda² (ibidem). Não deu certo e logo vi que não havia como fugir do acessório. 

Com os meu botões, pensativo: "ora, se sou obrigado a me submeter a tantos aplicativos nestes tempos digitalíssimos, por qual razão haveria de dispensar o uso de um acessório, uma vez que, sem usá-lo ao transitar de carro, fico incomodado?". E tem mais. Demorei, mas faz horas que aderi ao cinto de segurança, apesar de, psicologicamente; o outro (o puta merda), instintivamente, ser algo muito mais associado ao meu conforto/segurança, quando entro num carro.

E eis que, finalmente, vou largar mão do puta merda*. Textualmente. Eu precisava muito escrever estas palavras todas e cativar a atenção de quem me lê. Espero assim ter me resolvido por completo em relação ao tal acessório. Daqui pra frente, todas as vezes que eu olhar no espelho retrovisor, o PUTA MERDA nunca mais vai me deixar encanado.

E pode ter certeza se você está entre aqueles que me leram que, para se livrar de um problema que te persegue, escreva sobre ele. A literatura, puta merda, não surgiu na Itália, nem na Europa, França e Bahia. A literatura ajuda a gente a entender melhor o mundo. E, quem sabe, mudá-lo!

loro

todas as vezes que entro num carro, sempre que possível... puta merda

 

 

 

 

 


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