CONTO

Catedral*



Quanto tempo tinha que você não colocava os pés numa igreja? Aposto que desde que a sua velha morreu. Doze, treze anos? Vamos, diga, quanto tempo? Pare de tossir e me responda, quanto tempo? É... algumas situações são de fato complicadas. Ou muito simples: vocês depositam todas as fichas nas mãos de um completo estranho para crer fielmente, de olhos fechados, vocês creem que assim vão ter alguma espécie de resposta positiva. Os santos, aqueles que vocês chamam de santos, na verdade não têm poder algum. Anote aí em seu caderninho: eles não têm poder algum. Aprenda de uma vez que o que tiver de acontecer acontecerá, sem efeitos especiais, as coisas são como são. Lembro de você pequeno ainda, iludido como qualquer um, de joelhos para uma possibilidade remota de salvação. Agarrado, como qualquer um, a uma tábua furada e, ainda assim, contra todas as apostas da casa, botando fé em que iria levar o grande prêmio no final. Sonhando em quebrar a banca.

Sua mãe quando adoeceu mostrou-se mais feliz do que era antes. Finalmente ela tinha um motivo para seguir: uma desculpa. Se no princípio, a partir do momento em que seu pai decidiu se aventurar nos labirintos excitantes da fortuna imediata — ele se libertou, era mais feliz assim —, se no princípio ela parecia tonta, sem rumo na vida, não demonstrava para vocês, é claro, mas estava sim perdida, que nem piranha nova no puteiro, depois que chegou a notícia lá da morte do marido, a carta que veio de longe, aí ela se aprumou e seguiu. Foi justamente quando soube que também estava para morrer. Percebe como foi positivo? O que vocês acreditam ser o fim de tudo, a doença, pode muito bem ser, na verdade, a saída. Normalmente é.

Ela abaixava a cabeça para tudo — para tudo e todo mundo —, e carregava vocês juntos, certo? Com um sorriso. Não servia se não fosse com um sorriso. De algum lugar todos vocês, todos vocês, de uma forma ou de outra, de algum lugar vocês tiram que as coisas vão melhorar, que as dificuldades da vida estão colocadas aí para, de alguma forma, potencializar uma vitória que, com toda certeza, vai surgir mais adiante. Raciocínio esquisito, o de vocês. O sujeito se fode todo, quanto mais ele se foder melhor, para depois, somente depois, alcançar uma felicidade que estará guardada só para os fortes, para aqueles que souberem ler as regras do jogo, e seguir essas regras, porque são poucos os que têm a disposição de tocar em frente com dignidade. Se acham melhores por isso.

Mas vocês resolveram tentar assumir as rédeas dessa história. Ah, se resolveram: você e também seu irmão, que também já partiu. Cada um à sua maneira, mas tentaram sim. Ele foi por um caminho, se interessa a opinião, mais divertido. Você foi por outro, um tantinho diferente, que não deixa de ter seu valor, sua beleza. Você se afastou, radicalmente, eu diria, das drogas ilícitas. Não queria nem saber, verdadeiro horror, confere? Acontece que se manteve próximo, realmente muito próximo, e disso eu tenho certo orgulho, se manteve bastante chegado da bebida, do cigarro, das mulheres. Lembra alguém? Faria estourar de satisfação seu papaizinho, não faria?

Os dois, você e essa sua amiguinha, saíram da praça das putas e foram dar na catedral. Bom, consta que seja uma catedral, mas não faz muita diferença, não é verdade? No fim, dá tudo no mesmo. Acaso seria capaz de distinguir uma catedral de uma igreja batista, por exemplo? Ali tinha um grupo de mascarados. Homens vestidos com capuz de monge estavam sendo atacados e atormentados por outros homens; estes, os segundos, vestidos com fantasias de esqueleto e de diabo. Os homens vestidos de diabo usavam máscaras de diabo, chifres e rabos compridos de diabo. Parece que essa pantomima faz parte de uma procissão. Na parte externa da catedral têm umas estátuas relativamente pequenas esculpidas para parecerem monstros: as gárgulas. Na parte de dentro tem umas pinturas na parede que não sei se são afrescos. Dizem que sua construção exigiu centenas de operários, e que levou cinquenta ou cem anos para ficar pronta. Pode uma coisa assim? Diversas gerações das mesmas famílias trabalharam na catedral. Os homens que iniciaram a vida trabalhando na catedral morreram sem ver seu trabalho concluído. E tudo isso para quê? Ela é muito alta, a catedral, sobe muito, muito alto. Vai subindo, subindo a vida toda. Na direção do céu. Ela é tão grande, a catedral. É pesada, feita de pedra. E mármore. Definitivamente foi feita para que os homens, veja só, para que os homens pudessem ficar bem pertinho de deus.

Chamo atenção para um detalhe: posso estar exagerando, mas para mim parece que essa sua amiguinha olhava para você profundamente, direto nos olhos, e foi como se não te visse, como se te atravessasse com o olhar. E você não fez nada. Puta que pariu, nada. Era o mesmo que ver tornados, furacões, maremotos, incêndios e ainda assim não fazer nada. Acomodou-se porque deus estava olhando e decidiu não fazer nada.

Um ministro paroquial acolhia os pais, padrinhos e convidados. Mostrava os folhetos de orientação para que não se perdessem: os pais, padrinhos e convidados. Para que não se perdessem. E dessa forma iniciava o ritual, com seus cânticos inverossímeis e suas orações desesperadas. A celebração continuava com o mestre de cerimônias dizendo deus gosta de chamar vocês pelo nome, ele conhece cada pessoa e para cada pessoa ele dá uma missão aqui na terra. E por isso eu pergunto, ele perguntava, por isso eu pergunto: qual foi o nome que vocês escolheram para seu filho? Vamos, digam, qual foi o nome que vocês escolheram para seu filho? Ou sua filha? E cada padrinho, deslocado, certamente, num ambiente tão inacreditável, cada padrinho dizia, individualmente, o nome de seu, a partir daquele preciso momento, afilhado. Ali quem se destacava era o padrinho, toda a luz sobre o padrinho, aquele camarada que semanas antes frequentara curso de formação para os desavisados, que inclusive portava um diploma, que saiu ontem do trabalho e partiu direto para a esbórnia, aquele que bebeu e chafurdou a noite inteira, que até poucas horas antes estava feliz, inocente para um futuro de responsabilidades inescapáveis no auxílio bem próximo de pai substituto, na tarefa impossível de indicar aos bastardinhos o caminho da verdade. E a madrinha, da mesma forma embalada pelo aroma inebriante de carvão, de incenso e de mirra, também com seu diploma, renunciando e crendo e querendo muito, também chamava mais atenção do que tudo, perfeita nas fotografias para os álbuns de família, que serão cada vez menos folheados, inúteis, nos eventos anuais, nos encontros de família. As crianças. Dezenas de crianças, todas elas branquinhas branquinhas, numas vestes bem branquinhas, agora renascidas na água santa, numa choradeira enlouquecida, esperneavam nos colos despreparados de qualquer um que se dispusesse a amarrotar a fatiota, na suadeira dos infernos, enquanto lhes enfiavam sal goela abaixo, enquanto lhes cravavam a óleo nos peitos o sinal de uma cruz. Os membros da comunidade, guiados por todos os santos, se concentravam, agradecidos feito o diabo, ao redor do círio em chamas, à saída da igreja.

Todos os crentes debandando e apenas sua amiga ali sentada. Chorando.

 

*Reproduzido de http://www.candido.bpp.pr.gov.br

pitaya cultural

carlos

Carlos Eduardo Pereira é carioca. Seu romance de estreia, "Enquanto os dentes" (2017), foi semifinalista do Prêmio Oceanos e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura


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