Fados


Canto de nossa tristeza
Choro da nossa alegria
Praga que é quase uma reza
Loucura que é poesia
Um sentimento que passa
A ser eterno cuidado
Em razão duma desgraça
E assim tem de ser, é fado
(Canção Fado dos Fados)

Compartilhar é um ato de alegria. Estamos sensibilizados, felizes com o filme “Fados” (2007) de Carlos Saura, que sempre estamos reprisando que queremos repartir com vocês. Quem não assistiu, procure ver e aos que assistiram, um brinde.

O fado é o orgulho dos portugueses, representa sua alma. É cantado por uma pessoa (fadista) acompanhada de um violão e de uma guitarra portuguesa, suas letras falam do mar, da gente simples, de saudades, nostalgia, ciúmes, destino.


Quanto a sua origem há controvérsias, pode ter vindo das melancólicas cantigas dos mouros; ou da união da “modinha”, composição suave, romântica e chorosa, com o “lundu”, trazido pelos escravos brasileiros à Lisboa (que introduziu batuques lascivos). E ainda há a teoria da origem vir dos trovadores e jograis. O fato é que o fado nasceu em Lisboa e foi à Coimbra pelos universitários. Dessa divisão surgiram dois estilos distintos: o fado de Lisboa que é vadio e escondido; e o de Coimbra que é sentido e choroso.

A primeira vez que assistimos Fados, não foi aquela coisa toda. Claro que ficamos embasbacados com o primoroso trabalho do cineasta espanhol. Cores, luzes, transparências, sombras, sobreposição de imagens... E a história do fado vai se desenrolando musicalmente, quase sem falação. Só cantoria, instrumentos afinados dialogando e danças. O aspecto visual bateu forte, mas o fado em si, não pegou muito. Imagino que não se trata de um tipo de música pra se ouvir sem abrir o coração e sem reparar nas nuances harmônicas e a riqueza melódica proposta.

 

Saura na direção


E lembrar que a primeira vez que assistimos Fados, sugeri que ele poderia funcionar como uma vassoura atrás da porta, o velho truque para espantar visitas! Ouvir fado é lembrar de Portugal. Um dos mais deliciosos capítulos da experiência europeia do Tyrannus. Um dia, andando por Lisboa, fomos parar na frente do Museu do Fado. Cometi o sacrilégio de refugar a visita, um gesto imperdoável. Daqueles pra se arrepender pelo resto da vida.

Posando


Hoje dói, o arrependimento. A partner me consola: “A gente tem que se arrepender de algumas coisas na vida”. Eu continuo: “Uma vida sem erros não é humana. O grande lance do erro é o exercício de reconhecê-lo”. “Voltaremos a Portugal e você repara essa falta”.

Fados, eu diria, foi a minha iniciação nesse gênero musical. Alguns críticos detonaram com o musical. Dizendo que o fado é muito maior do que o que foi mostrado. Certamente. Como há a participação de cantores e músicos de vários países de língua portuguesa, lá estão Toni Garrido, Caetano e Chico Buarque. Parece que não se saíram muito bem. Lemos que só Chico se salvou. Não vamos entrar nesse mérito. Mas há momentos belíssimos neste documentário, que está muito mais pra musical, segundo nossa opinião de iniciantes no fado.

Caê, do Brasil
  
Lura, de Portugal/Cabo Verde 

O filme faz parte de um pacote que também inclui “Tango” e “Flamenco”.  Não é de se duvidar que “Flamenco” deva ser o mais significativo, já que Saura é espanhol. Mas, além de ter nascido na Espanha, ele é um cineasta de projeção internacional, que assinou produções como “Cria Cuervos”, “Ana e os Lobos” e “Mamãe faz cem anos”, entre outros. Sua obra representa um conjunto respeitável.

Há uma teoria nas artes (especialmente cinema e literatura), segundo a qual o artista não deve discorrer (escrever ou filmar) sobre aquilo que não domina. Não sendo Saura um português, talvez não fosse ele o cineasta ideal para assinar documentários sobre fado e tango. E talvez, por causa dessa mesma teoria, “Buena Vista Social Clube”, dirigido por Wim Wenders seja muito ruim (????!!!!!).

Amália Rodrigues, do Fado
Depois de assistir ao filme ou uma apresentação de fado, se te perguntarem o que é o fado, a canção “Tudo isso é fado”, ajuda a responder.


Almas vencidas
Noites perdidas
Almas bizarras
Na mouraria
Canta uma rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinza e lume
Dor e pecado
Tudo isso existe
Tudo isso é triste
Tudo isso é fado.


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3 Comentário(s).
Quanto mais a gente espera, menos a gente espera!
Os clientes do noGargalo mandam sua cota filosófica http://nogargalo.blogspot.com/2011/07/para-o-tyrannus-melancholicus.html
enviada por: Valéria del Cueto    Data: 22/10/2012 10:10:10
eu sei que: quanto mais tarde a gente sai, mais cedo a gente chega.
enviada por: fochesatto    Data: 22/10/2012 10:10:10
de quem não se espera nada é que não vem nada mesmo
enviada por: Anonymous    Data: 22/10/2012 10:10:10

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