ROMANCE (trecho)

Máquinas como eu*



Aos dezenove anos, escrevi um ensaio ponderado sobre as culturas baseadas na honra, intitulado “Algemas forjadas na mente?”. Reuni imparcialmente os exemplos a serem usados. O que eu tinha a ver com aquilo? Havia lugares em que o estupro era tão comum que não existia uma palavra que o definisse. O pescoço de um jovem pai era cortado se ele não cumprisse algum dever derivado de antiga rixa de família. Mais além, eu mostrava uma família desejosa de matar a filha por ela ter sido vista de mãos dadas com um rapaz do grupo religioso incorreto. Em outros lugares, mulheres idosas ajudavam pressurosas na mutilação genital de suas netas. Onde estavam os impulsos instintivos dos pais de amar e proteger? A sinalização cultural falava mais alto. E os valores universais? De pernas para o ar. Nada do gênero em Stratford-upon-Avon. Tudo tinha a ver com a mente, a tradição, a religião — comecei a entender que era uma questão de software, que merecia ser encarada sem juízos de valor.

Os antropólogos não julgavam. Observavam e relatavam a variedade humana. Comemoravam as diferenças. O que era maldade em Warwickshire passava em brancas nuvens na Papua-Nova Guiné. Em cada lugar, quem diria o que era bom ou mau? Certamente não uma potência colonial. Extraí de meus estudos algumas conclusões infelizes sobre a ética, que me levaram poucos anos depois a um tribunal do condado, acusado de conspirar com outros indivíduos para enganar as autoridades fiscais em larga escala. Não tentei persuadir o Meritíssimo Juiz de que, longe de seu tribunal, poderia haver uma praia com coqueiros onde tal conspiração seria respeitada. Em vez disso, controlei-me momentos antes de me dirigir a ele. A moralidade era real, correspondia a valores verdadeiros, o bem e o mal eram inerentes à natureza das coisas. Nossas ações devem ser julgadas nesses termos. Era assim que eu pensava antes de conhecer a antropologia. Com voz trêmula e hesitante, pedi perdão de forma abjeta perante o tribunal, evitando com isso pegar uma pena de prisão.

Quando entrei na cozinha pela manhã, mais tarde que de hábito, os olhos de Adão estavam abertos. Eram de um azul bem claro, com minúsculos traços verticais negros. As pestanas eram longas e profusas, como as de uma criança. Mas o mecanismo de piscar ainda não tinha sido ativado. Era configurado para operar a intervalos irregulares, além de ajustado em função de diferentes estados de espírito e gestos, devendo reagir às ações e à fala de seus interlocutores. Com alguma relutância, eu havia lido o manual durante boa parte da noite. Adão vinha equipado com um reflexo de piscar a fim de proteger os olhos de objetos voadores. No momento, seu olhar não expressava nenhum significado ou intenção, sendo assim tão irrelevante e morto quanto o olhar de um manequim na vitrine de alguma loja. Até o momento, não exibia aqueles pequeninos movimentos que são tão afetuosamente característicos de uma cabeça humana.

 

*Trecho de romance de Ian McEwan, com previsão de lançamento para 19 de junho. Publicação da Companhia das Letras, com tradução de Jorio Dauster

maquinas

 

mcewan

Ian McEwan, nascido na Inglaterra, é um dos ficcionistas mais importantes de sua geração. Seus livros já lhe renderam uma série de prêmios literários, entre eles o Man Booker Prize e o Whitbread Award

 

 


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