CRÔNICA

Mosaico Cuiabano*



O apito longo da embarcação soava na curva do rio, quando o comandante avistava a cidade, após o Morro de Santo Antônio. Serpenteando o pantanal, a lancha tracionava três chatas, uma pela retaguarda, outras duas nas laterais; subia e enfrentava a undosa correnteza, ao tempo em que piraputangas coloridas saltitavam saudando os viajores em primeiros bem-vindos. Era o nosso único caminho, o fluvial para a navegação pelos rios da Prata: Paraná, Paraguai e Cuiabá. 

Corríamos ao porto sempre em festa pela movimentação intensa do comércio, estimulado pelo rio Cuiabá, caudaloso, puro e piscoso. O desprezo de hoje dói na consciência cuiabana vendo-o decaído e arruinado. O esgoto “in natura” é lançado nas suas águas impiedosamente. Edifícios novos à sua margem crescem dando-lhe as costas para nele lançar dejetos, matando o oxigênio da sua vida. Ele, o patrimônio maior, foi desintegrado do povo. 

O cais de pedras cristais era o símbolo da nossa economia no século XIX e metade do XX, o marco da navegação fluvial, o signo dos heróis estivadores e carroceiros. Compunha o cenário do porto com o rio, a agência Miguéis e as casas comerciais, com expressões como Hid Alfredo Scaff, comerciante e da comunicação do radioamador, interligando comando de vapores, Marinha, famílias, compradores etc. Além da poesia do Cisne Branco e das valsas pela banda militar que animava ainda os lenços brancos das despedidas. A Avenida Beira-Rio não lhe poupou a história. O cais do porto geral foi soterrado.

Dentre as mercadorias descarregadas, chegavam as sacas de cimento Votoran e Votorantim para o transporte em carroça de três burros. O cimento para as construções, bem como para as poucas e pequenas fábricas de ladrilho hidráulico. Foram fabricantes pioneiros em Cuiabá, Francisco Mechi e Pedro Gratidiano Dorileo. De alta resistência, é uma placa de concreto prensada, contendo superfície de face aparente com textura lisa ou em relevo, no padrão preto e branco ou colorido, com formato quadrado de 0,20m x 0,20m, ou hexagonal.

A cura ou endurecimento ocorre através de reação química denominada hidrólise dos aluminatos e silicatos que só se realiza em meio úmido – daí, hidráulico. A água do tanque era apreciada para aveludar as mãos das meninas do bairro. De fabricação artesanal, a sua técnica foi trazida da Itália por volta de 1920, ainda hoje fabricado mediante encomenda, como em São Paulo, sob a escolha de centrais, faixas, florões e tosetos.

Por desvelo filial, é mais sentimental recordar a fábrica do Dorileo, vendo o seu cuidado madrugador no preparo das massas grossa e fina, do “molho das tintas dosadas nos matizes do dia” para facilitar ao ladrilheiro. Eram o Nicerso, o Alípio, e o carroceiro Bernardo, descobridor da areia mais adequada. Brincar nas areias corrida ou de goma era o gosto das crianças à porta da fábrica.

Velhos casarões senhoriais ainda conservam o ladrilho hidráulico, carinhosamente chamado de mosaico cuiabano, como a Casa de Bembém (em transformação para abrigar um museu), a Casa de Júlio e Maria de Arruda Müller, a Santa Casa de Misericórdia, em parte, o Seminário da Conceição, em parte. O Santuário Eucarístico na colina do seminário tem-no conservado, o de Maria Auxiliadora teve arrancado; podendo algumas peças ser encontradas em casas outras antigas. A Casa Barão de Melgaço cuida deste mosaico original e passa a adotar o seu desenho para emoldurar o retângulo dos diplomas acadêmicos. Tradição e história estão celeremente escapando da memória do nosso povo nestes dias metálicos. Que museus adotem as suas peças, que o teatro exiba o mosaico cuiabano, a literatura cante a sua existência.

Quanto ao rio Cuiabá, segundo profissionais das áreas da engenharia, da arquitetura e do meio ambiente são urgentes a dragagem, a estação de tratamento da rede de esgoto da cidade, a proteção da flora e da fauna. A Prefeitura Municipal lança o projeto Cuiabá-Porto, prevendo a revitalização de espaços de conveniência e de entretenimento, com obras de lazer e cultura apressadamente para 2014, ano de alguns jogos aqui da Copa do Mundo. Primeiro, que haja interesse de todos os setores em convergência. Segundo, que a visão seja ampliada para 2019, ano dos 300 anos da nossa cidade. Então, seja possível uma cruzada de obras, cujo tema seja o rio Cuiabá, na dependência de recursos financeiros vultosos. Assunto nas mãos dos parlamentares.

Que se retome o transporte fluvial, ao menos para ligar a Capital a alguns dos seus bairros e a cidades circunvizinhas. Homenagem ao rio natal do passado pela oferta romântica dos banhos nas tardes de águas mornas e calmas, vendo o viço pomposo dos sarãs, sob a proteção do silêncio, somente quebrado pela canção das jandaias. Ao mosaico de outrora, o culto memorativo ao seu reinado nas varandas cuiabanas, nos salões das tertúlias ou dos bailes amorosos, ou no templo contrito pela fé.  

 

*Texto escrito em 2013, que integra o livro “Folhas Evocativas” (Editora Entrelinhas), de Benedito Pedro Dorileo. O lançamento acontece neste sábado (15), às 16h, na Casa Barão de Melgaço

dorileo

Benedito Pedro Dorileo acumula em sua trajetória experiências como advogado, político, professor, especialista em Direito Educacional, reitor da UFMT, historiador e escritor


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