CONTO

Rose Eagle*



É extraordinário verificar com que rapidez Rose Eagle esqueceu os primeiros catorze anos da sua vida. Eram apenas um sonho e ela acordava e via-se sentada na mala de lata amarela, na cozinha do “seu primeiro trabalho”, sentindo as mãos e os joelhos a tremer disparatadamente e o sangue que lhe aquecia as faces. Podia-se pensar que tinha sido trazida, ela e a mala de latão, pela porta das traseiras da cozinha de Mrs. Taylor, pela última vaga do temporal: tão fora daquele lugar, tão perdida, e virava a cabeça para a esquerda e para a direita, como se reparasse no silêncio e na calma, pela primeira vez na vida...

Era o fim da tarde de um dia escaldante de dezembro. Através dos estores, o sol desenhava riscos no chão, no aparador e num calendário que mostrava um sonhador Jesus adolescente com os braços cheios de carneirinhos. Em frente, Mrs. Taylor mudava o bebê deitado nos joelhos dela, a agitar os braços no ar, e sem parar de fazer bolhinhas.

Mrs. Taylor continuava a falar com Rose, na voz suave, um pouco cantada. Bruscamente, ouviu-se tocar o pêndulo do relógio na chaminé; no escritório, uma torneira pingava e parecia um ruído de passos.

A tudo o que dizia Mrs. Taylor, Rose respondia: “Sim, minha senhora. Não, minha senhora.”

“Vai dormir no quarto do Reggie. É o meu filho mais velho. Tem quatro anos, e pu-lo na escola. Agora que chegou, o bebê já não vai ficar comigo à noite – não me deixa dormir. Está habituada aos bebês.”

“Oh! Sim, minha senhora.”

“Não me sinto muito bem para lhe estar a dizer o que tem que fazer.”

E, com gestos lânguidos, espetava alfinetes de ama no bebê que fazia gluglu. Rose Eagle levantou-se e inclinou-se sobre Mrs. Taylor.

“Dê-mo”, disse-lhe.

Quando se reergueu, com o embrulho quente e gordinho nos braços, já não tinha medo. O bebê Taylor era para ela o que é a tigela de leite para o gato perdido: quando a aceita, está domesticado. 

“Ora, ora, tantos cabelos que tem este homenzinho”, murmura Rose, abraçando-o, docemente. “Parecem plumas negras.”

Mrs. Taylor ergueu-se, levando as mãos à cabeça. Alta e esguia, no seu vestido de algodão lilás, sacudiu a farta cabeleira negra, de olhos semicerrados e lábios a tremer. 

“Oh, pois é, a senhora não tem nada bom aspecto”, disse Rose, apreciando aqueles ares dolentes. “A senhora vá-se deitar na cama, e eu já lhe trago uma taça de chá. Vou arranjar tudo o melhor que puder.”

Seguiu a patroa fora da cozinha, pelo corredor, até ao lindo quarto. “Deite-se! Tire os sapatos!” Mrs. Taylor obedeceu, suspirando, e Rose Eagle voltou para a cozinha na ponta dos pés.

 

*Reproduzido de https://iedamagri.files.wordpress.com

kath

Katherine Mansfield (1888-1923) foi uma prolífica contista nascida na Nova Zelândia, quando colônia britânica). Foi editada por Virginia Woolf, que a idolatrava; e sua prosa também foi destacada por Clarice Lispector

 

 

 

 

 


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3 Comentrio(s).
Ciao a tutti vengo dall'italia
enviada por: itaWrome    Data: 23/09/2019 14:02:46
hello everyone thanks for approve
enviada por: rardcen    Data: 17/10/2019 04:04:10
Hello. And Bye.
enviada por: rardcen    Data: 07/09/2019 09:09:32

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